domingo, junho 19, 2011

paineras


Os coqueiros lá no fundo balançam suas folhas imitando a chuva. Meus olhos se voltam para a janela cada vez que os ouvidos captam o som antigo, tão igual às gotas caindo no chão... Mas elas nunca caem; a o coqueiro continua iludindo os fúteis ouvidos que se distraem com qualquer som que lhe traga lembrança. O vento continua, incessante, arrastando as poucas folhas que sobraram das copas das árvores, os galhos retorcidos balançam numa dança quase engraçada, embalados pelo ar que corre. O lápis também corria contínuo pelo olho, pintando de preto as margens da pálpebra enquanto ela se contemplava no espelho. O vestido estava tão bem ajustado no seu corpo fresco, os pés ainda estavam descalços no carpete, havia uma suspensão quase cinematográfica no ar, enquanto as gotículas do perfume que acabara de ser espirrado adentravam as minhas narinas, eu ainda estava com os olhos voltados para a janela.
“- Quero ser Judy Garland dançando nos tijolos amarelos!” E seus pés se movimentavam, pulando pelo quarto, fingindo ser Dorothy; os cabelos presos num coque improvisado às vezes fugiam e caíam sobre seus olhos; ela os afastava para trás da orelha com os dedos que ainda seguravam o lápis. Depois, voltava-se ao espelho, a pintar os olhos. Por que pintava os olhos? Gostava tanto deles assim, limpos. Os cílios bem pretos já se destacavam sozinhos e o castanho claríssimo da sua íris era tão mais brilhante que essas maquiagens de falsos grãos de luz. Depois vinham os lábios, que já eram tão bem desenhados, mas que ela achava que eram claros demais. “Fico com cara de doente se não uso batom!”. Mas aqueles lábios nus, claros, acanhados, eram tão diferentes dos tantos que eu já havia visto, que era inaceitável violá-los com o vermelho vibrante ou até mesmo o rosa mais comportado dos batons que ela passava. Agora eles estavam avermelhados, dois pequenos morangos que se comprimiam um no outro para espalhar aquela pasta indigna... Ah, se chovesse e a água rolasse pelo seu rosto, eu poderia te ver tão limpa, tão linda como poucos dos meus sonhos fizeram jus. A água toda viria correndo dos céus com urgência para te tornar natural de novo, correndo e arrastando toda essa mistura queixo abaixo, te despindo em uma personificação quase pagã de tão pura... Não, não chovia ainda.
O momento em que você enroscou o pé no sapato jogado no carpete e caiu lindamente sobre a cama, deixando o lençol branco um pouquinho manchado do formato perfeito da sua boca e que começou a rir com aqueles dentes todos não ficaria registrado em lugar algum além de dentro dos meus próprios olhos, que já há muito, muito tempo haviam deixado os coqueiros em segundo plano. Não havia câmeras, não havia outros olhos que pudessem te ver, além dos meus. Não havia planos onde se pudesse projetar sua pele bem lisa, seus joelhos de menina estabanada e sua cicatriz no queixo, além daqueles que ainda estão aqui, dentro de mim. Eu estava só naquele universo todo que era você, como estrangeiro em terra desconhecida. Seus dedos longos tinham alcançado todas as paredes do quarto, da casa, do mundo todo em que eu acreditava viver e traziam todo esse seu corpo, invadindo por completo o universo que eu havia construído. E não havia mesmo como voltar a ser habitante de alguma outra terra que não fosse você, porque era desconhecido ou inexistente outro pedaço de chão que eu poderia pisar que não fosse feito da mesma textura dessa sua pele cheia de pintas e cheirosa de alguma coisa que eu nunca pude expressar em verbo.
Os meus olhos derrapavam pelo seu corpo espreguiçado junto ao meu enquanto seus dedos brincavam com as rendinhas do vestido, esses dedos que denunciavam você mais nova, roedora de unhas, fugitiva de um mundo que tentava te englobar por saber que você é universo também. Será que você sabe que é uma imensidão dessas? Que sopra os coqueiros enquanto eu não estou olhando só para que eu vire os olhos para a janela em busca de gotas de chuva? Será que eu posso dizer seu nome? As minhas mãos querem também brincar nessa renda, querem ver o umbigo dessa neo-Gaia que se apresenta diante de mim, de olhos pintados e boca pequena; quer conhecer a origem do mundo todo...
Essas duas castanhas tão claras olham para mim tão unicamente que eu posso ver dentro delas todas as cordilheiras do mundo, umas atrás das outras, se elevando e me derrubando para dentro delas, para cair sem ter fim. As pontes negras montadas artificialmente ao redor das cadeias montanhosas começam a despencar, formando um rio lamacento que percorre as bochechas lisas e arrastam aquela terra avermelhada que se incrustara nos lábios recortados, e eu posso te ver. Os olhos cheios de lágrimas e a cara cheia de você mesma, assim, limpa. O rosto nu de qualquer outro mundo que tentasse te invadir e te mudar, as montanhas esverdeando-se com uma vegetação que subitamente surgira pelo sal das tuas lágrimas, tornando seus olhos tão verdes quanto a palmeira que parava de fingir chuva, porque suas folhas estavam molhadas e não faziam barulho que pudesse se perceber diante da tempestade que rasgava os céus e saltava às vezes para dentro da nossa janela, molhando um pouquinho o carpete manchado das outras chuvas.
E então eu era definitivamente aquilo tudo que era você, pois já não era o menino de dedos sujos de tinta, de camisa amarrotada que jogava bolinha de gude no colégio, nem o garotinho no banquinho capenga, esquecido no canto do camarim, observando aquelas mulheres que passavam apressadas se trocando. Os corpos torneados da adolescência tornavam-se relevo desgastado de um lugar que nunca fui, também as pernas já não eram nem as minhas nem as outras, eram as suas. E a chuva lá fora que castigava esse mundo que antecedera você, que agora se desfazia como pele morta do passado, ia apagando o futuro poeta, a futura mãe, o futuro homem; carregava nas suas correntezas o universo que te prendia e que me prendia para fora de você antes mesmo de eu te descobrir.
Chora, minha menina, chora que teu pranto move as águas de todos os outros mundos, que não se sustentam diante da correnteza que salta dos teus olhos pela janela. Chora, que a chuva cai mais e mais forte, arrasta casas, vidas e desesperos, que ela não para nunca e irá chover até que corra para dentro do bueiro o próprio bueiro, enquanto eu sou cada vez mais interno ao seu umbigo-do-mundo, enquanto sumo para dentro de você definitivamente, sem dizer adeus a mim, pois já não conheço ‘eu-mesmo’ que não seja ‘você-mesma’, que enquanto essa água toda não nos atinge e nos leva junto na mistura pegajosa da nostalgia que deixei de sentir, eu ainda posso ouvir um ou outro coqueiro lá no fundo, a assobiar com o seu suspiro.

sexta-feira, agosto 27, 2010

Quando encontrei Bernarda Alba em seu vestido preto e seus vitrais avermelhados



Eu era menina. Não sentia as mãos raladas e doloridas, nem os olhos fundos de rotina. Não sabia deixar escorrer pelo meu rosto o suor do meu trabalho, nem limpar a maquiagem borrada e tampoco sabia que choro tem fim.
Então cheguei em frente aos vitrais rubros de Bernarda Alba, o seu vestido negro fazendo os cacos de vidro vibrarem dentro de uma lógica casta absurda. Sua gola alva se erguendo imponente pelo pescoço rígido, logo abaixo dos lábios coloridos de um vermelho quase sacro. Eu não poderia entender, por mais que quisesse, quem era aquela mulher que se erguia sobre mim, e porque sua boca era tão torta e suas mãos curvas, cheias de garras. Não conseguiria entender por mais que contemplasse o seu andar doloroso, as rugas vincadas na sua face, as raízes que se arrastavam pelo seu corpo, sustentando os mil anos que vieram antes dela. Porque não era contemplando que eu poderia entender, era sendo. Então eu tentei ser, eu arrisquei as minhas pernas sem cicatrizes dentro dos sapatos doloridos daquela mulher. E turvei minha boca ainda nova numa dor, numa angústia que eu nunca tive. Eu tentei sentir meu útero feito pedra, porque era só assim que eu poderia ter um pouco do incomunal daquela mulher. Pouco a pouco as raízes novas se fincaram na minha pele de dezenove anos, tão lisa e sem história, rasgando a carne para abrir espaço para toda aquela crença, aquela vida, aquela força impetuosa de um touro que sobrevive e se impõe, transformando meu couro envelhecido e surrado, minhas mãos frias e exatas, meu sangue grosso e vibrante de andaluza, um que nem eu sabia que tinha.
Eu fui Mulher, vertiginosa, ferida, menina. Eu tive as marcas das ruas de pedra bem aqui, nesses dedos que agora escrevem, nesses meus pés que me carregam. Eu tive o ódio de ser mulher e ser só, das botas de montaria, dos pés que perderam o sapateado andaluz, que agora relincham nervosos contra o fim dos ideais que nem eram meus, eram dela.
Quando me virei e fui embora, ainda raiavam de luz os vitrais vermelhos, mas agora eram de sangue não abençoado. As rendas do vestido de Bernarda se confundiam com as rendas da minha saia rodada, e acho que carreguei um terço. Agora eu tenho joanetes que se mostram, tenho olheiras. O suor brilha nas têmporas nos dias de trabalho e eu deixo brilhar. Se sou mulher? Menina ainda sou nos dias de samba, quando coloco o vestido cintado e tenho flor no cabelo.

imagem: Vitral de Chartres

quinta-feira, abril 15, 2010

drop



Subia a fumaça do cigarro tão devagar quanto num filme antigo, os dois deitados, largados, juntos, calados. Ou será que só eu me calava? Uma luz ali de fora, quando se abria um ou dois dedos de janela, entrava a cegar meus olhos, amarelada.

- A luz parece que tem um milhão de auréolas que ficam piscando no olho da gente depois que a gente pára de olhar. Parece um monte de anjos... Rodando, tentando ver nossa alma aqui dentro do olho...

Meus olhos agora ficavam cheios de bolinhas piscando, olhando dentro das minhas pupilas vazias. Eu tragava o cigarro como quem canta uma nota conhecida, a boca não se tensionava, a fumaça corria na garganta, os olhos se fechavam pra esconder daquele bando de anjos uma alma que nem eu mesma conhecia. E a fumaça corria pra fora da boca, contínua, segura, amarelando com a luz que vinha lá de fora. Eu saía pela rua procurando por Marina. Eu também via aquele par de sapatos vermelhos de não sei quantos mil réis (que só duravam um mês) andando tortos pelas ruas da cidade, também ia me esconder no cinema querendo ser Marina. Tropeçava nas raízes da árvore que era Marina, suas pernas-madeira se agarrando naquele chão todo, apertando meu estômago também, torcendo minhas entranhas enquanto eu tentava ser tua Marina. O bucho vazio que ela agora carregava pelo menos era mais leve. Marina se rasgava frente a mim, feito papel molhado, desmontava enquanto eu mentia que era ela, enquanto minha reza baixa corria pela terra tentando alcançar alguém que a ouvisse. Nunca soube rezar. Os joelhos doeram tanto quando me fizeram ajoelhar no banco envernizado que esqueci o que tinha que falar, só lembrei da dor. E cada vez que tentava rezar, só vinha a dor; dos joelhos, dos pés, dos dedos, da alma roída que eu não conhecia. A reza ficava assim, curta, sempre sem jeito de ser falada pra santo, era mais um ganido.
Esse quarto é tão vazio quando fecha a janela, quando aquela luz lá do poste não bate nos meus olhos, quando só tenho duas pernas, quando nada se fala nem se ouve, quando a reza pára de rastejar e fica presa no carpete, a porta fechada, o cinzeiro tão cheio e a minha boca vazia de melodias...

- Eu quero sentar em cima dos arcos da Lapa e ver o Circo Voador.

Esses seus joelhos cheios de cicatrizes de velha meninice bem que poderiam te projetar lá pra cima do Arcos, pra deixar os seus olhos brincarem de trapezista caindo na paisagem toda e se balançando, tentando se equilibrar na linha do horizonte. Ai que eles sempre se balançam quando se lançam dentro dos meus, bem sei. Ficam com os pés presos nas suas pálpebras e as mãos tentando fazer os meus se lançarem também. Mas não me lanço, meus joelhos são lisos e fracos e mal servem para sambar, quem diria pra pular dessa altura... Só sei seguir passo inventado, com alguma força e delicadeza, posso te ensinar se quiser. Sei que você só sabe calçar seus próprios passos com esses pés que deus arranjou e também sei bem que você não acredita que os passos já existiam antes e a gente só pisa naqueles que tem que pisar... E não gosta se eu digo que deus esconde os dados que joga. Por que mesmo era silêncio agora? Ai, que com os olhos fechados essas pintinhas de luz ainda insistem em brilhar nas pálpebras da gente... Acho que uma pergunta sua se enroscou na fumaça do cigarro e ficou parada no ar, enquanto seus olhos me encaram atrás de resposta. Ah, por que eu me sinto solta como uma personagem de uma música quando você me olha assim? Porque eu não posso ser Marina. Porque meus sapatos são baixos e pretos, porque meus vestidos verdes não chegam aos pés do azul de prima Luiza, porque eu fico me enchendo de meios pelos quais existir sem tem que ser por você. E essa luz que fica perseguindo minhas pupilas, essa fumaça toda que se pendura nos meus pulmões, esse meu sussurro velado, rasgado correndo pela casa é o que me faz, o que me afirma porque meus pés não se fincam no chão, meus olhos não mergulham e meus dedos só batucam barulhos conhecidos. Sua pergunta, qual era mesmo? Sim, ainda continuarei de olhos fechados me escondendo desses anjos todos.

quarta-feira, julho 29, 2009

Lime, light.


Janela, ela atrás. Olha pela janela com uns olhos que se alongam fora do batente, inteiros, amendoados, coloridos de castanho. Se alongam pela rua de pedra retrógrada, olhos policiais buscando não sei bem o quê. O vestido bem cintado de rendas e bordados delimita a linha dos ombros deixando os ossos bem marcados no colo, o pescoço que se alonga junto com aqueles olhos... Os braços tocam levemente a beirada da janela e o joelho descansa na parede. Respirar, tão importante e fácil de esquecer, respirar inteiramente, fundo, para os pulmões se inflarem como balões de festa e o diafragma quase estourar feito elástico: o peito sobe num movimento gradativo e depois desaba, jogando o ar pra fora.
O interior do cômodo porta-se como as rendas do vestido: detalha silenciosamente os pontos necessários. Assim há algum lugar para se deitar, alguma flor, alguma velha foto, talvez uma música. Na verdade pouco importa uma vez que os olhos estão todos nas pedras da rua.
Passam uns pés por essas pedras. Uns pés bem calçados, outros andando pingentes, apertados em números menores, fugindo em buracos ocasionais... Pés descalços apoiando-se em calos para amenizar o calor que sobe das pedras, pés relaxados, pés cheios de pressa. Também pouco importa os pés, os olhos ainda se alongam mais além dos pés e das pedras. Vão até a rua de cima, até a avenida, a praça, a estação de trem, pelos trilhos correm ansiosos, famintos. Pelos trilhos correm através das matas e das rodovias, olham pela janela e a paisagem nunca é a mesma. Olham nos olhos dos reflexos das janelas, as casas do caminho, perdidas. O cheiro das árvores, que lembra o cheiro de limão verde recém cortado, invade as narinas por meio do nervo óptico, ah, o frescor dos pinheiros do caminho... A outra estação, fora da cidade, entre dois mundos diferentes, o telhado cinza e os trens que nunca param.
Então os olhos vêem o piso lustrado, antigo, e os sapatos que rangem nele, numa melodia familiar, tantan tantantantan, tantan, tan tantan... Os pontos da renda do vestido começam a se desfazer pelos dedos que o transpassam, assim como os elementos no cômodo se distanciaram para dar passagem àqueles outros olhos. A melodia é mais intensa, os ossos do colo se movem, o pescoço longo se contrai com o arfar que chega até ele. Vão para longe estações, trens, casas, trilhos e pinheiros. Os braços se levantam, o joelho enrijece e os olhos se retiram da janela, mergulhando enfim naqueles outros que pareciam demorar tanto a chegar.

Imagem: daqui, via google

quinta-feira, janeiro 08, 2009

Losing my Religion



Ouve o meu nome, esse é o meu nome. É meu nome quando calas ao ver meu sorriso, com a malícia de ser tão atrevida quanto criança quando respondo tuas perguntas retóricas. Meu nome, soletrado, com ódio ou paixão quando te arranco a ferro o olhar superior que tenta te convencer que já não há nada de mim em ti, quando te cravo minhas unhas e logo largo, deixo aí seu corpo se esvaindo sem chegar a mim.
Amor é meu nome em todas as línguas que lambem, em tantas outras que me procuram. É esse, o nome que grita quando confunde minhas pernas, embrenhado em corpos onde procura a m o r, que grita na rua, desvairado, não sabendo quem é o dono, amor capitativo, possessivo.
É esse, esse é meu nome que dedica a outrém, oblata nos altares, o nome alcunhado do teu medo invadido por meu asco é esse que carrego, que retalha, que fura, que rasga. É esse esquecido, rasgado a hora que me rompo a procura de ti, amor, esse é o meu nome, é meu nome quando rompe o dia. Quando te vejo aqui, contornando meu corpo, buscando um jeito de te reconhecer em mim, quando já não há entrelaços nos nossos corpos nos agarrando um ao outro e nos resta agarrar na crueldade de cada um.
Amor é como me chamas quando arranca de mim dois átrios, e o peito dilacerado, um tanto de corpo que já não cria chagas que dão conta, ri descrente da tua fuga. É assim que me apresento quando me vejo em tuas entranhas e já não me reconheço: mudas o meu rosto.
É o nome que também chamo quando me gruda na cintura, e chamo para que não me largue a beira de te largar. É o que evito e sei que também evitas, mas esse é o nome que mais gostas de ouvir: o meu.


Imagem: Juliette Binoche em A Liberdade é Azul
Soundtrack: R.E.M (obvious)

domingo, dezembro 07, 2008



Deixar o dia correr, vê-lo corrente, segue sem rumo, furtivamente. Continuo seguindo, mil passos em meio, como correr tão distante, se vivo ecoante, se tenho que ser

um

minuto

de

cada

vez

?

Imagem: fotografia por Mayara Lima
Sarau Casa do Teatro, dezembro de 2008.

sexta-feira, outubro 10, 2008

Para além do Círculo Polar Ártico


Quando o sol entrou em Libra, o primeiro dia foi de chuva. Então, por três dias o sol entrou pela janela secando a parte de água que havia se acumulado no assoalho. Nos dias seguintes, ventou.

Durante os anos anteriores - e os próximos anos que virão - a chuva, que fugia da décima primeira casa, caía logo ali, sete meses depois, após os oito primeiros dias de Libra, o chuvaréu fugia do aguadouro e caía estrondoroso sobre os pratos de metal. Logo após, era vento.

Eram agora feitas dezessete noites primaverís, agora já não ventava, a inclinação da Terra fazia outras sombras, e Urano errou de lugar e entrou em Escorpião, agora tudo fazia muito impacto e revolução em cada vida, as andorinhas ainda estão fugidas com o verão e aquele desejo de liberdade que secava o aguadouro tornara-se in-sa-ci-á-vel.

Então veio; e a vinda, que era Sol da Meia-Noite nestes olhos, ficou para sempre entardecer. Nótus assoprou, e seu sopro formou as nuvens que aqui encobrem meus olhos, as gotas de chuva acertam bem na íris e caem ralas pelas pupilas, grandes bocas que se abrem e se fecham a cada raiar d'algo. Oitenta e nove dias, vinte horas e dezesseis minutos, neste momento já subtrairam-se dezoito dias; Libra equinociando o renascer não tem mínimo ou total conhecimento de seu sucumbir em meio de tanta água.

Agora é silêncio e Éris sussurra nos ouvidos da humanidade. Não há problema, o sol ainda está em Libra, o aguadouro transborda e, na realidade, Urano ainda não saiu de Peixes.

Quando vens, faço Aurora. Mas tu sempre chegas Boreas.

Imagem: Boreas, de John William Waterhouse (1849-1917)

segunda-feira, maio 19, 2008

Papier-Maché


Na mistura de cola e papel os dedos são incisivos, malhando a perfeita combinação heterogênea de acetato de polivinila e celulose em faces desconhecidas.
Havia um certo quê em comum entre todas ela, talvez fora o furinho inoportuno de queixo ou o rosto largo, ainda que sempre mudasse as bochechas e nunca reutilizasse os olhos: eram únicos demais para serem reutilizados.Acinzentava as unhas com a mescla, que buscava conforto por entre minhas extintas cutículas e cantos de pele, sentindo na sua frieza de papel o calor frio das mãos trabalhantes que ausentavam-se de seu querer. A massa engolia o que se emanava pelos poros da pele, entre suor e nervosismo, os fluidos daquele sentimento mais inerente à existência de mim, que ali depositava meus dias vazios de não se sabe o que, seguidos pelas noites cheias de espera por não sei quem, e a chegada de ninguém, que encostava-se no mais fundo de meu colo e brincava nos átrios do coração com sua presença gélida, esvaziando cada cava do meu eu, deixando a vaga daquela onda que por tanto permeou em meus cantos, minhas notas e meus passos de dança.
Revolvia a massa a bailar por entre meus dedos como bailavam os de quem não conseguia saber, havia algo tão familiar naquelas formas perfeitas que eram modeladas sobre o gesso impessoal, a cola grudando pobremente os cacos de lembrança que vinham com aquele não sei que fluido misterioso que cheirava a anemia. O soluço batia na garganta, nota sustenida da canção que fora engolida com muitos ácidos acetilsalicílicos e composições de hidrogênio, oxigênio e sais minerais. Exalava aqui fora junto com as noites mal dormidas e as poucas horas de conforto irregular no tato que cheirava a água e pele.
Acabava seguido por uma torrencial liberação de lágrimas insalubres, havia água por todos os lados. As gotas caíam formando sulcos na massa que traziam não sei qual ponto entre os cabelos e os ombros, onde cabia perfeitamente meu pescoço saudoso e confortava meu queixo no começo das costas largas que alumiavam meus olhos vazios de multidão com seu calor que acinzentava agora na massa arruinada pelas lágrimas.
As águas para todos os lados caíam, agora eu era uma parte dele, ele é uma parte de mim: ocupa noventa e tantos por cento do meu corpo, que, cansado, exprimia por todo e qualquer menor saída possível a presença dele que trazia esse não sei o quê de vital para mim. Logo, pude perceber que havia de me cortar e voltar inteira, era tão parte de mim que agora sou como a cola na mistura: uma pequena parte que tenta desesperadamente grudar, ainda que com ineficiência, cada parte de papel que em mim é depositada, tornando-me ausente de mim e presente dele, com seus furinhos de queixo, no seu encaixe perfeito do meu pescoço, o nariz arrebitadinho e as bochechas cheirosas de não sei bem qual motivo.
Sempre mudei as bochechas e nunca lhe utilizei os olhos, a cegueira luminosa que me trazia conduzia meus dedos frios de seu contato para modelar-lhe na massa, ah, és pretensioso! A tal, embebida nessa luz toda e farta de minha presença, tomava as rédeas da criação e me mandava volver. Hesitava, hei de reaver meu cantinho entre os ombros e os cabelos outrora tão meus, mais meus que a sua presença em mim? Ainda aqui nos sulcos de mim, passeiam as mãos daquele não sei qual vazio alojado no peito que ele ocupava.
Colo ingrato, que fareja aquele não sei qual cheiro anêmico de tanto desejo que torna meu melhor prazer, conduziste-me à procura de não sei qual rosto largo rodeado pelas lágrimas que agora escorrem para fora da cola os pedaços cinzas de papel.
Deito fora aqui toda combinação de vinil e celulose num disco bem surrado de músicas nossas.


Obra de Arte: Frida Kahlo, "Lo que vi en el agua o Lo que el agua me dio", 1938
Yo soy lo que el agua me dio.

sábado, março 22, 2008

Asfalto


Aquele foi um segundo silenciosamente gratificante, a silhueta conhecida da figura guardada no canto mais secreto do cérebro apareceu quase casualmente diante de minha moradia.
Olhou com seus olhos cheios de gente bem fundo nos meus olhos vazios de mar, bem no momento em que distraí com as compras do mês. De longe provavelmente não tinha certeza se o contato visual fora bem-sucedido, logo antecipou a vinda ao encontro do ser momentaneamente desejado, avançando em seus passos bem conhecidos por aquele asfalto cheio de pedrinhas e buracos, subindo na calçada de terra (primórdios de jardim), frente a casa de formato diferente que havia freqüentado durante diversos dias seguidos por diversas tentativas não coesas de relacionamento estável.
Afundei em sacolas de supermercado carregadas de coisas inúteis: as prateleiras nos lançam magia com suas cores cheias e barulhos de embalagens de plástico prático. Acabamos por atirar as coisas bonitas e com bons preços nos carrinhos que muitas vezes carregamos pelo simples fato de não nos sentirmos em compras de mercado sem carrinhos de metal andando tortos pelos corredores de chão lustrado.
Carreguei várias sacolas em uma única mão, o que resultou em uma delas arrebentada, latas de atum espatifando-se pelo chão. Quatro mãos correram para auxiliar os pobres peixes moídos, consolando-os na sacola de pães. Dessa vez, olho-no-olho foi inevitável, e senti a invasão da população daqueles olhos escuros em meus olhos desabitados, descendo pelo nervo óptico, usando faringe-laringe como via expressa para o coração, outros viajando em hemácias, fazendo-as percorrer todo meu corpo que se esquentara parte a parte, latejando na boca a sensação de sentir-se cheio de novo.
Sabia que não iam se demorar, e logo haveria o êxodo, pois olhos de vaga não aceitam povoação. Fingi, mentira inerente ao ser humano, e conduzi-me adentro pelas mãos na cintura, crentes de dirigir a situação. O beijo quase latino foi conseqüência de nossos atos suicidas de sempre tentar-se povoar, mesmo crédulos de que sou terreno deserto, e que ele é populista. Para total êxito, havíamos de nos aprofundar em campo e metrópole ao mesmo tempo, paixão e metodismo haviam de se misturar em nossas salivas, num amor transcendental, transgressor de tantas regras, estrepado, ensagüentado, reincidente de ser nosso a cada vez que fujo de mim ou ele avança em seus passos bem conhecidos por aquele asfalto de buracos e pedrinhas.

Imagem: fotografado por Mayara Lima
(Após dois meses em balanceamento da Autora, Interferindo volta a tona)

terça-feira, janeiro 22, 2008

Des-apontador



Ele era alto e observador. Jamais falava o que não desse a entender que seu maior defeito consistia na sua tendência para a destruição. E por isso o dizia, alisando os cabelos negros como quem alisa o pêlo macio e quente de um felino. Era uma memória muscular, fazer doer para poder sorrir, dramatizando para a bronca ser menor. Era machucador.
Já o era ao fazer cócegas na irmã até esta chorar, fazê-la chorar apenas por chorar. Era atrativo de lágrimas.
Chegava em mim como se chega um rapazote igual aos demais: posando força e aconchego, inflexível. A mim mostrava-se terno, misterioso. Mas também machucador.
Vez tinha arroubos de ternura, em que enterrava lábios sem beijos nos meus cabelos, e ainda sim era magoador. Machucava nas peles da vaidade de início, e depois nos mantos do coração.
Vez chegava jocoso em seu canto, ao encarar o modo com que eu relutava em chegar a você. E chegava, sempre.
Mas era magoador, feriu as peles da vaidade, os mantos do coração e por fim os núcleos da alma.
E eu dei festas pra ele, dentro de mim. Até quando tudo se tornou menos carnaval. Deixou-se cair na cadeira da indiferença e foi-se indo, drenando as lágrimas de mim. Anjos cegaram-me com o ciúme, fui magoadora.
Ele deixou os cabelos negros de lado: não sabia como era ser machucado. Desapontou. Desapontou no sorriso de canto, nas lágrimas que derrubou, na dor que não causou. Fiquei estática, deliciosamente batida.
Nunca fui machucadora, em mim as dores vieram de início. Logo, sabia como cuidar daqueles lábios sem beijo, das cartas de amor sem amor, dos beijos não roubados, das palavras não ditas.
Porém, ele que era machucador nunca sentira os lábios secos cortando a pele, nunca ouvira o silêncio dos diálogos, nem lera os papéis em branco, cheios de letras.
Logo após ser machucado, foi ver doer em outras o que via em mim. Não encontrou dor que lhe comovesse, nem lágrima satisfeita.
Um dia, a encontrou. A encontrou como ponto neutro: sem beijo de namorada ou carta de despedida. Era neutra, quase tom pastel.
Eu (que não era machucadora, nem pastel), pensava no seu jeito tão dele de (não) chegar, planejando ir acidentalmente aos nossos lugares, rever as casquinhas das feridas que causou. Imaginar o que ela faz para o ter e mais: se ele chega desse jeito tão nosso pra ela também, se brinca com sua timidez e joga com sua graça, se canta pra ela nossa música já batida, se afaga seus lábios sem beijos nos cabelos dela, se a vê nos seus olhos refletidos no espelho e se quando pousa a cabeça no travesseiro, cheira o cheiro dela, assim machucador.
É claro que, assim machucador, mesmo que diga que agora seu coração passeia por novos ares, mesmo escancarando isso para mim, tinha que machucar. E chegar no seu silêncio misterioso, não mais como rapazote forte, nem acariciando os cabelos de gato (ronronante e adorador), chegou naquele nosso íntimo mistério, invadindo meu universo, no fim do meu infinito particular, machucador apenas no abraço. E o seu sorriso desapontador de canto de lábio cantou pra mim aquela canção, sentindo arfar, agora que era machucado e machucador. Fiquei ali, deliciosamente batida, deliciosamente verde, anil, amarelo, cor-de-rosa e carvão.


Imagem: Trecho da obra "O Beijo", Gustav Klimt
Post Scriptum: É, estava a ouvir MM...

sexta-feira, janeiro 18, 2008

Mãos em forma de conchinha



Orando ao fulano Deus para ele me dar um caminho certo pra seguir, vivendo em carvão, em vermelho e azul e multicor, como paixões que surgem e se vão, como as chuvas do verão. Como o material volátil, hora inerente, hora em chamas.

Mas vez em quando, paro e me pergunto se não deveria procurar uma certeza, um porto seguro, a profissão estável, um relacionamento sério, a casa própria e um aquário. Questionando sobre contas, impostos, prestações, trânsito, política, casamento, pasta de dente, as seriedades da vida. Fico presa naqueles momentos em que você se sente como se segurasse uma panela de água por horas, decidindo se vai usá-la ou jogá-la pra cima, deixando molhar o corpo numa manobra inusitada.
Então deixo a água fresca correr sobre meu corpo, sentir cada nervura, pele, contato, tato... Sentindo o gosto singular, vendo sua transparência brilhante. Ouvindo-a esparramar-se pelo chão, e ali descansar, exausta do percurso, para depois novamente seguir o seu caminho: evaporar, unir, condensar, fazer chover, reunir, encanar, vazar, secar, evaporar...


Com o corpo molhado e a alma saciada entrego os pontos: era inerte. Agora é minha vez de estar em chamas.


Ósculos!
Imagem: Internet

O ponto, o amor.

"Cada passo torna-se um ponto de chegada.
Ou a saída do próximo momento."


Quanto tempo!
Postarei um Neruda, and nothing more :]

A Dança

Não te amo como se fosses a rosa de sal, topázio
Ou flechas de cravos que propagam o fogo:
Te amo como se amam certas coisas obscuras,
Secretamente, entre a sombra e a alma.
Te amo como a planta que não floresce e leva
Dentro de si, oculta, a luz daquelas flores,
E graças a teu amor vive escuro em meu corpo
O apertado aroma que ascendeu da terra.
Te amo sem saber como, nem quando, nem onde,
Te amo assim diretamente sem problemas nem orgulho:
Assim te amo porque não sei amar de outra maneira,
Senão assim deste modo que não sou nem és,
Tão perto que tua mão sobre o meu peito é minha,
Tão perto que se fecham teus olhos com meu sonho.
Antes de amar-te, amor, nada era meu:
Vacilei pelas ruas e as coisas:
Nada contava nem tinha nome:
O mundo era do ar que esperava.
E conheci salões cinzentos,
Túneis habitados pela lua,
Hangares cruéis que se dependiam,
Perguntas que insistiam na areia.
Tudo estava vazio, morto e mudo,
Caído, abandonado, decaído,
Tudo era inalianavelmente alheio,
Tudo era dos outros e de ninguém,
Até que tua beleza e tua pobreza
De dádivas encheram o outono.

Pablo Neruda




kiss :*

Drummond

"Olha, o amor pulou o muro
o amor subiu na árvore
em tempo de se estrepar.
Pronto, o amor se estrepou.
Daqui estou vendo o sangue
que escorre do corpo andrógino.
Essa ferida, meu bem,
às vezes não sara nunca
às vezes sara amanhã."
[Drummond]


É, me estrepei >.<

Saudade

Tema: Saudade.
Saudades é um sentimento estranho, numa palavra engraçada.
É como uma dorzinha de dente; não tem como deixar pra lá e pensar em outra coisa, ela tá sempre ali martelando, hasteando a bandeira e gritando "- 'Tô aqui!".
Abafar ela também não é muito útil, é como colocar band-aid em ferida, não cura.
Ela vem sorrateira, pula o muro da sua casa e entra por debaixo da porta, se enrosca nos seus pés e vem, e te assola o coração.
E então a gente fica fraco, e pesado: parece que o mundo sentou nos nossos ombros.E as lágrimas adquirem o peso de uma bigorna, tudo fica cinza e a probabilidade de vc se nutri apenas dos seus vícios é grande.Há alguns dias eu passo basicamente à café, é reconfortante.
Saudades de acordar tarde e assistir old liga da justiça
saudade de correr na areia, saudade de ser criança e tomar sorvete sujando toda a roupa, saudades das guerras de bis, saudades do cheiro da tinta do meu quarto sendo pintado...
Saudade das broncas da minha mãe, das pivetisses dos meus irmãos.
Saudades do frio, saudades de quase morrer congelada no vento do cultural.
Saudades do cultural, do lanche do trailler do Caub's, de falar "Caub's"
Saudades das minhas primas, saudades de ficar a tarde inteira jogando bilhar e imaginando a moça do quadro revoltada durante a noite pq todo mundo passava o taco na bunda dela, saudade de andar pela cidade com travesseiros na mão e deitar no meio da avenida pra tirar fotos
Saudades de postar e sempre ter o limite de comentários estourados, saudades dos apelidos que eu dei pra vcs,
saudades do 'se lig, teh'
Saudades de virem me visitar em casa, saudade de ficar sentada na calçada dessa casa amarela aqui na frente q sem vcs não tem graça, saudade de jogar toda a bagunça de barbies pela sala e depois recolher tudo peça por peça
Saudades de levar bronca pq coloquei as coisas no vidro errado, saudades de dançar na sacada de casa e rir da cara dos garotos lá embaixo.
Saudades de dançar no rodeio e maldizer o treinador do hand, saudades de ir na colina ficar olhando pro céu, saudades de zuar os enfeites de natal, saudade de ouvir a mesma música mil vezes, saudades do meu papel de estrelas, saudades do meu cd do J, saudades do meu The Spaghetti Incident, saudades de se vestir de Neta Noel...
Saudades de dançar quadrilha, saudades de cantar musiquinhas de desenho, saudades de assistir CDZ, saudades do Padre Quededo, saudades de brigadeiro com as amigas.
Saudades das frases da coca-cola, saudades de rir até a barriga doer, saudades de ficar fanha, saudades de ir na padaria comprar ruffles e coca cola, saudades de comer bala de gelatina/m+m's na sorveteria, de pintar os celulares alheios ^^
Saudades de falar bobeira a tarde inteira, de prometer, de cumprir, de sair correndo pela rua pulando as arvorezinhas, saudades de zuar a "quase-banda-do-...", saudades de ficar até tarde da noite na rua, de brincar na construção, de estar com vc, de conversar...
Saudades de beber cerveja escondido, de sonhar com os carinhas da Disney, de ficar na casa da minha melhor amiga de todos os tempos por dias.
Saudades da minha melhor amiga de todos os tempos
Saudades de todos os amigos, daquele reveillon, de SC, dos planos, das pulseiras de amizade, dos churrascos, de tomar sol de shorts fazendo teste de revista
Saudades de brincar de pega-pega nas escadas da escola, de matar aula de espanhol, de matar aula de inglês pra ir pro shop, de imitar os professores.
Saudades das meretrizes, saudades do meu pônei, saudades do ARRASTÃO e tudo que vinha com ele, saudades do meu msn antigo, saudades do ICQ, saudades da vida real, saudades da vida digital.
Saudades das intermináveis conversas por MSN com pessoas especiais, saudades das cartas da Bea, saudades de todas as cartas que mandei e não recebi de volta, das figurinhas...
Saudades da simpatia de alguns, que desapareceu quando conheci realmente, saudades de não pensar em nada,
saudades de tudo o que quebrei, rasguei, queimei...Saudades das fotos, saudades dos momentos.
Saudades de MG, saudades de ser criança, saudades de ser amada declaradamente, e escondido tb. Saudades de AMAR sem sofrer, saudades da cortadeira, dos 'sendo com C', do papa polones, do James Bond, da Garouta Soviética, do Catrina, do meu nerd, das intermináveis conversas [II], até dos bugs do fotolog.net!
Saudades de todas as baboseiras que agora são tão importantes...

Saudades, tantas saudades...
Saudades da minha vida, saudades de mim.


Mais tantas outras que eu mal posso falar, saudades de minutos atrás, saudades de dias, meses, anos, instantes.Saudades de palavras, pessoas, papéis, objetos, coisas, interesses, situações, lembranças...




Texto de hoje:
Retrato

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.


Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
a minha face?
[Cecília Meireles]






obs: texto na íntegra aqui, os outros são somente a parte reelevante
:*

Cantiga d'os olhos verdes

Estou arrumando a casa ainda, mas daqui a pouco tudo entra nos eixos!


De mais, tudo bem...Até que enfim as coisas estão mais calmas para mim [exceto aquelas que nunca descansam], e tenho respirado livremente como tanto gosto!


Certas outras coisas são como dores de dente, não passam fácil e doem tanto, mas tanto que confundem seu cérebro e você mal pode pensar no que fazer.


Essas coisas eu simplesmente aceito e abdico; não há como expurgá-las facilmente. Sim, talvez seja uma acomodação que data de tempos e tempos, mas simplesmente é assim que reajo, isso às vezes é reconfortante; ter acesso a dores do passado me faz revivê-lo. E sabem como eu sou saudosista, ah, como amo relembrar-me e querer que tudo seja tão perfeito como fora antes, por mais que antes nao tenha sido. Simplesmente amo o acontecer, e não quero que se vá, e isso é complicado... Mas longe de ser regressionista! Eu olho para frente e vivo agora, mesmo querendo que tenha sido ontem.


Enfim, texto do dia:


Cantiga
A este mote alheio:
Menina dos olhos verdes,
por que não me vedes?

Voltas

Eles verdes são,
e tem por usança
na cor, esperança
e nas obras, não.
Vossa condição
não é d’olhos verdes,
porque me não vedes.

Haviam de ser,
por que possa vê-los
que uns olhos tão belos
nao se hão de esconder;
mas fazeis-me crer
que ja não são verdes,
porque me não vedes.
Verdes não o são
no que alcanço deles;
verdes são aqueles
que esperança dão,
Se na condição está serem verdes
por que me não vedes?










Camões é mestre, e nada melhor do que começar com ele e com esse pequeno poema que amo!
E tanto me diz...
Bem, enfim, aproveitem e não se equivoquem pelo que verem aqui, eu não sou trebulosa =)

Beijos!

Novamente...

Um casa limpa e reformulada agora!
Postarei os antigos posts novamente, pois eles são um passado que eu gosto :]

Sejam mil vezes bem-vindos a nova casa!

Beijos ;*