
Aquele foi um segundo silenciosamente gratificante, a silhueta conhecida da figura guardada no canto mais secreto do cérebro apareceu quase casualmente diante de minha moradia.
Olhou com seus olhos cheios de gente bem fundo nos meus olhos vazios de mar, bem no momento em que distraí com as compras do mês. De longe provavelmente não tinha certeza se o contato visual fora bem-sucedido, logo antecipou a vinda ao encontro do ser momentaneamente desejado, avançando em seus passos bem conhecidos por aquele asfalto cheio de pedrinhas e buracos, subindo na calçada de terra (primórdios de jardim), frente a casa de formato diferente que havia freqüentado durante diversos dias seguidos por diversas tentativas não coesas de relacionamento estável.
Afundei em sacolas de supermercado carregadas de coisas inúteis: as prateleiras nos lançam magia com suas cores cheias e barulhos de embalagens de plástico prático. Acabamos por atirar as coisas bonitas e com bons preços nos carrinhos que muitas vezes carregamos pelo simples fato de não nos sentirmos em compras de mercado sem carrinhos de metal andando tortos pelos corredores de chão lustrado.
Carreguei várias sacolas em uma única mão, o que resultou em uma delas arrebentada, latas de atum espatifando-se pelo chão. Quatro mãos correram para auxiliar os pobres peixes moídos, consolando-os na sacola de pães. Dessa vez, olho-no-olho foi inevitável, e senti a invasão da população daqueles olhos escuros em meus olhos desabitados, descendo pelo nervo óptico, usando faringe-laringe como via expressa para o coração, outros viajando em hemácias, fazendo-as percorrer todo meu corpo que se esquentara parte a parte, latejando na boca a sensação de sentir-se cheio de novo.
Sabia que não iam se demorar, e logo haveria o êxodo, pois olhos de vaga não aceitam povoação. Fingi, mentira inerente ao ser humano, e conduzi-me adentro pelas mãos na cintura, crentes de dirigir a situação. O beijo quase latino foi conseqüência de nossos atos suicidas de sempre tentar-se povoar, mesmo crédulos de que sou terreno deserto, e que ele é populista. Para total êxito, havíamos de nos aprofundar em campo e metrópole ao mesmo tempo, paixão e metodismo haviam de se misturar em nossas salivas, num amor transcendental, transgressor de tantas regras, estrepado, ensagüentado, reincidente de ser nosso a cada vez que fujo de mim ou ele avança em seus passos bem conhecidos por aquele asfalto de buracos e pedrinhas.
Imagem: fotografado por Mayara Lima
(Após dois meses em balanceamento da Autora, Interferindo volta a tona)
Olhou com seus olhos cheios de gente bem fundo nos meus olhos vazios de mar, bem no momento em que distraí com as compras do mês. De longe provavelmente não tinha certeza se o contato visual fora bem-sucedido, logo antecipou a vinda ao encontro do ser momentaneamente desejado, avançando em seus passos bem conhecidos por aquele asfalto cheio de pedrinhas e buracos, subindo na calçada de terra (primórdios de jardim), frente a casa de formato diferente que havia freqüentado durante diversos dias seguidos por diversas tentativas não coesas de relacionamento estável.
Afundei em sacolas de supermercado carregadas de coisas inúteis: as prateleiras nos lançam magia com suas cores cheias e barulhos de embalagens de plástico prático. Acabamos por atirar as coisas bonitas e com bons preços nos carrinhos que muitas vezes carregamos pelo simples fato de não nos sentirmos em compras de mercado sem carrinhos de metal andando tortos pelos corredores de chão lustrado.
Carreguei várias sacolas em uma única mão, o que resultou em uma delas arrebentada, latas de atum espatifando-se pelo chão. Quatro mãos correram para auxiliar os pobres peixes moídos, consolando-os na sacola de pães. Dessa vez, olho-no-olho foi inevitável, e senti a invasão da população daqueles olhos escuros em meus olhos desabitados, descendo pelo nervo óptico, usando faringe-laringe como via expressa para o coração, outros viajando em hemácias, fazendo-as percorrer todo meu corpo que se esquentara parte a parte, latejando na boca a sensação de sentir-se cheio de novo.
Sabia que não iam se demorar, e logo haveria o êxodo, pois olhos de vaga não aceitam povoação. Fingi, mentira inerente ao ser humano, e conduzi-me adentro pelas mãos na cintura, crentes de dirigir a situação. O beijo quase latino foi conseqüência de nossos atos suicidas de sempre tentar-se povoar, mesmo crédulos de que sou terreno deserto, e que ele é populista. Para total êxito, havíamos de nos aprofundar em campo e metrópole ao mesmo tempo, paixão e metodismo haviam de se misturar em nossas salivas, num amor transcendental, transgressor de tantas regras, estrepado, ensagüentado, reincidente de ser nosso a cada vez que fujo de mim ou ele avança em seus passos bem conhecidos por aquele asfalto de buracos e pedrinhas.
Imagem: fotografado por Mayara Lima
(Após dois meses em balanceamento da Autora, Interferindo volta a tona)

