
Eu era menina. Não sentia as mãos raladas e doloridas, nem os olhos fundos de rotina. Não sabia deixar escorrer pelo meu rosto o suor do meu trabalho, nem limpar a maquiagem borrada e tampoco sabia que choro tem fim.
Então cheguei em frente aos vitrais rubros de Bernarda Alba, o seu vestido negro fazendo os cacos de vidro vibrarem dentro de uma lógica casta absurda. Sua gola alva se erguendo imponente pelo pescoço rígido, logo abaixo dos lábios coloridos de um vermelho quase sacro. Eu não poderia entender, por mais que quisesse, quem era aquela mulher que se erguia sobre mim, e porque sua boca era tão torta e suas mãos curvas, cheias de garras. Não conseguiria entender por mais que contemplasse o seu andar doloroso, as rugas vincadas na sua face, as raízes que se arrastavam pelo seu corpo, sustentando os mil anos que vieram antes dela. Porque não era contemplando que eu poderia entender, era sendo. Então eu tentei ser, eu arrisquei as minhas pernas sem cicatrizes dentro dos sapatos doloridos daquela mulher. E turvei minha boca ainda nova numa dor, numa angústia que eu nunca tive. Eu tentei sentir meu útero feito pedra, porque era só assim que eu poderia ter um pouco do incomunal daquela mulher. Pouco a pouco as raízes novas se fincaram na minha pele de dezenove anos, tão lisa e sem história, rasgando a carne para abrir espaço para toda aquela crença, aquela vida, aquela força impetuosa de um touro que sobrevive e se impõe, transformando meu couro envelhecido e surrado, minhas mãos frias e exatas, meu sangue grosso e vibrante de andaluza, um que nem eu sabia que tinha.
Eu fui Mulher, vertiginosa, ferida, menina. Eu tive as marcas das ruas de pedra bem aqui, nesses dedos que agora escrevem, nesses meus pés que me carregam. Eu tive o ódio de ser mulher e ser só, das botas de montaria, dos pés que perderam o sapateado andaluz, que agora relincham nervosos contra o fim dos ideais que nem eram meus, eram dela.
Quando me virei e fui embora, ainda raiavam de luz os vitrais vermelhos, mas agora eram de sangue não abençoado. As rendas do vestido de Bernarda se confundiam com as rendas da minha saia rodada, e acho que carreguei um terço. Agora eu tenho joanetes que se mostram, tenho olheiras. O suor brilha nas têmporas nos dias de trabalho e eu deixo brilhar. Se sou mulher? Menina ainda sou nos dias de samba, quando coloco o vestido cintado e tenho flor no cabelo.
imagem: Vitral de Chartres


