
Os coqueiros lá no fundo balançam suas folhas imitando a chuva. Meus olhos se voltam para a janela cada vez que os ouvidos captam o som antigo, tão igual às gotas caindo no chão... Mas elas nunca caem; a o coqueiro continua iludindo os fúteis ouvidos que se distraem com qualquer som que lhe traga lembrança. O vento continua, incessante, arrastando as poucas folhas que sobraram das copas das árvores, os galhos retorcidos balançam numa dança quase engraçada, embalados pelo ar que corre. O lápis também corria contínuo pelo olho, pintando de preto as margens da pálpebra enquanto ela se contemplava no espelho. O vestido estava tão bem ajustado no seu corpo fresco, os pés ainda estavam descalços no carpete, havia uma suspensão quase cinematográfica no ar, enquanto as gotículas do perfume que acabara de ser espirrado adentravam as minhas narinas, eu ainda estava com os olhos voltados para a janela.
“- Quero ser Judy Garland dançando nos tijolos amarelos!” E seus pés se movimentavam, pulando pelo quarto, fingindo ser Dorothy; os cabelos presos num coque improvisado às vezes fugiam e caíam sobre seus olhos; ela os afastava para trás da orelha com os dedos que ainda seguravam o lápis. Depois, voltava-se ao espelho, a pintar os olhos. Por que pintava os olhos? Gostava tanto deles assim, limpos. Os cílios bem pretos já se destacavam sozinhos e o castanho claríssimo da sua íris era tão mais brilhante que essas maquiagens de falsos grãos de luz. Depois vinham os lábios, que já eram tão bem desenhados, mas que ela achava que eram claros demais. “Fico com cara de doente se não uso batom!”. Mas aqueles lábios nus, claros, acanhados, eram tão diferentes dos tantos que eu já havia visto, que era inaceitável violá-los com o vermelho vibrante ou até mesmo o rosa mais comportado dos batons que ela passava. Agora eles estavam avermelhados, dois pequenos morangos que se comprimiam um no outro para espalhar aquela pasta indigna... Ah, se chovesse e a água rolasse pelo seu rosto, eu poderia te ver tão limpa, tão linda como poucos dos meus sonhos fizeram jus. A água toda viria correndo dos céus com urgência para te tornar natural de novo, correndo e arrastando toda essa mistura queixo abaixo, te despindo em uma personificação quase pagã de tão pura... Não, não chovia ainda.
O momento em que você enroscou o pé no sapato jogado no carpete e caiu lindamente sobre a cama, deixando o lençol branco um pouquinho manchado do formato perfeito da sua boca e que começou a rir com aqueles dentes todos não ficaria registrado em lugar algum além de dentro dos meus próprios olhos, que já há muito, muito tempo haviam deixado os coqueiros em segundo plano. Não havia câmeras, não havia outros olhos que pudessem te ver, além dos meus. Não havia planos onde se pudesse projetar sua pele bem lisa, seus joelhos de menina estabanada e sua cicatriz no queixo, além daqueles que ainda estão aqui, dentro de mim. Eu estava só naquele universo todo que era você, como estrangeiro em terra desconhecida. Seus dedos longos tinham alcançado todas as paredes do quarto, da casa, do mundo todo em que eu acreditava viver e traziam todo esse seu corpo, invadindo por completo o universo que eu havia construído. E não havia mesmo como voltar a ser habitante de alguma outra terra que não fosse você, porque era desconhecido ou inexistente outro pedaço de chão que eu poderia pisar que não fosse feito da mesma textura dessa sua pele cheia de pintas e cheirosa de alguma coisa que eu nunca pude expressar em verbo.
Os meus olhos derrapavam pelo seu corpo espreguiçado junto ao meu enquanto seus dedos brincavam com as rendinhas do vestido, esses dedos que denunciavam você mais nova, roedora de unhas, fugitiva de um mundo que tentava te englobar por saber que você é universo também. Será que você sabe que é uma imensidão dessas? Que sopra os coqueiros enquanto eu não estou olhando só para que eu vire os olhos para a janela em busca de gotas de chuva? Será que eu posso dizer seu nome? As minhas mãos querem também brincar nessa renda, querem ver o umbigo dessa neo-Gaia que se apresenta diante de mim, de olhos pintados e boca pequena; quer conhecer a origem do mundo todo...
Essas duas castanhas tão claras olham para mim tão unicamente que eu posso ver dentro delas todas as cordilheiras do mundo, umas atrás das outras, se elevando e me derrubando para dentro delas, para cair sem ter fim. As pontes negras montadas artificialmente ao redor das cadeias montanhosas começam a despencar, formando um rio lamacento que percorre as bochechas lisas e arrastam aquela terra avermelhada que se incrustara nos lábios recortados, e eu posso te ver. Os olhos cheios de lágrimas e a cara cheia de você mesma, assim, limpa. O rosto nu de qualquer outro mundo que tentasse te invadir e te mudar, as montanhas esverdeando-se com uma vegetação que subitamente surgira pelo sal das tuas lágrimas, tornando seus olhos tão verdes quanto a palmeira que parava de fingir chuva, porque suas folhas estavam molhadas e não faziam barulho que pudesse se perceber diante da tempestade que rasgava os céus e saltava às vezes para dentro da nossa janela, molhando um pouquinho o carpete manchado das outras chuvas.
E então eu era definitivamente aquilo tudo que era você, pois já não era o menino de dedos sujos de tinta, de camisa amarrotada que jogava bolinha de gude no colégio, nem o garotinho no banquinho capenga, esquecido no canto do camarim, observando aquelas mulheres que passavam apressadas se trocando. Os corpos torneados da adolescência tornavam-se relevo desgastado de um lugar que nunca fui, também as pernas já não eram nem as minhas nem as outras, eram as suas. E a chuva lá fora que castigava esse mundo que antecedera você, que agora se desfazia como pele morta do passado, ia apagando o futuro poeta, a futura mãe, o futuro homem; carregava nas suas correntezas o universo que te prendia e que me prendia para fora de você antes mesmo de eu te descobrir.
Chora, minha menina, chora que teu pranto move as águas de todos os outros mundos, que não se sustentam diante da correnteza que salta dos teus olhos pela janela. Chora, que a chuva cai mais e mais forte, arrasta casas, vidas e desesperos, que ela não para nunca e irá chover até que corra para dentro do bueiro o próprio bueiro, enquanto eu sou cada vez mais interno ao seu umbigo-do-mundo, enquanto sumo para dentro de você definitivamente, sem dizer adeus a mim, pois já não conheço ‘eu-mesmo’ que não seja ‘você-mesma’, que enquanto essa água toda não nos atinge e nos leva junto na mistura pegajosa da nostalgia que deixei de sentir, eu ainda posso ouvir um ou outro coqueiro lá no fundo, a assobiar com o seu suspiro.


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