domingo, junho 19, 2011

paineras


Os coqueiros lá no fundo balançam suas folhas imitando a chuva. Meus olhos se voltam para a janela cada vez que os ouvidos captam o som antigo, tão igual às gotas caindo no chão... Mas elas nunca caem; a o coqueiro continua iludindo os fúteis ouvidos que se distraem com qualquer som que lhe traga lembrança. O vento continua, incessante, arrastando as poucas folhas que sobraram das copas das árvores, os galhos retorcidos balançam numa dança quase engraçada, embalados pelo ar que corre. O lápis também corria contínuo pelo olho, pintando de preto as margens da pálpebra enquanto ela se contemplava no espelho. O vestido estava tão bem ajustado no seu corpo fresco, os pés ainda estavam descalços no carpete, havia uma suspensão quase cinematográfica no ar, enquanto as gotículas do perfume que acabara de ser espirrado adentravam as minhas narinas, eu ainda estava com os olhos voltados para a janela.
“- Quero ser Judy Garland dançando nos tijolos amarelos!” E seus pés se movimentavam, pulando pelo quarto, fingindo ser Dorothy; os cabelos presos num coque improvisado às vezes fugiam e caíam sobre seus olhos; ela os afastava para trás da orelha com os dedos que ainda seguravam o lápis. Depois, voltava-se ao espelho, a pintar os olhos. Por que pintava os olhos? Gostava tanto deles assim, limpos. Os cílios bem pretos já se destacavam sozinhos e o castanho claríssimo da sua íris era tão mais brilhante que essas maquiagens de falsos grãos de luz. Depois vinham os lábios, que já eram tão bem desenhados, mas que ela achava que eram claros demais. “Fico com cara de doente se não uso batom!”. Mas aqueles lábios nus, claros, acanhados, eram tão diferentes dos tantos que eu já havia visto, que era inaceitável violá-los com o vermelho vibrante ou até mesmo o rosa mais comportado dos batons que ela passava. Agora eles estavam avermelhados, dois pequenos morangos que se comprimiam um no outro para espalhar aquela pasta indigna... Ah, se chovesse e a água rolasse pelo seu rosto, eu poderia te ver tão limpa, tão linda como poucos dos meus sonhos fizeram jus. A água toda viria correndo dos céus com urgência para te tornar natural de novo, correndo e arrastando toda essa mistura queixo abaixo, te despindo em uma personificação quase pagã de tão pura... Não, não chovia ainda.
O momento em que você enroscou o pé no sapato jogado no carpete e caiu lindamente sobre a cama, deixando o lençol branco um pouquinho manchado do formato perfeito da sua boca e que começou a rir com aqueles dentes todos não ficaria registrado em lugar algum além de dentro dos meus próprios olhos, que já há muito, muito tempo haviam deixado os coqueiros em segundo plano. Não havia câmeras, não havia outros olhos que pudessem te ver, além dos meus. Não havia planos onde se pudesse projetar sua pele bem lisa, seus joelhos de menina estabanada e sua cicatriz no queixo, além daqueles que ainda estão aqui, dentro de mim. Eu estava só naquele universo todo que era você, como estrangeiro em terra desconhecida. Seus dedos longos tinham alcançado todas as paredes do quarto, da casa, do mundo todo em que eu acreditava viver e traziam todo esse seu corpo, invadindo por completo o universo que eu havia construído. E não havia mesmo como voltar a ser habitante de alguma outra terra que não fosse você, porque era desconhecido ou inexistente outro pedaço de chão que eu poderia pisar que não fosse feito da mesma textura dessa sua pele cheia de pintas e cheirosa de alguma coisa que eu nunca pude expressar em verbo.
Os meus olhos derrapavam pelo seu corpo espreguiçado junto ao meu enquanto seus dedos brincavam com as rendinhas do vestido, esses dedos que denunciavam você mais nova, roedora de unhas, fugitiva de um mundo que tentava te englobar por saber que você é universo também. Será que você sabe que é uma imensidão dessas? Que sopra os coqueiros enquanto eu não estou olhando só para que eu vire os olhos para a janela em busca de gotas de chuva? Será que eu posso dizer seu nome? As minhas mãos querem também brincar nessa renda, querem ver o umbigo dessa neo-Gaia que se apresenta diante de mim, de olhos pintados e boca pequena; quer conhecer a origem do mundo todo...
Essas duas castanhas tão claras olham para mim tão unicamente que eu posso ver dentro delas todas as cordilheiras do mundo, umas atrás das outras, se elevando e me derrubando para dentro delas, para cair sem ter fim. As pontes negras montadas artificialmente ao redor das cadeias montanhosas começam a despencar, formando um rio lamacento que percorre as bochechas lisas e arrastam aquela terra avermelhada que se incrustara nos lábios recortados, e eu posso te ver. Os olhos cheios de lágrimas e a cara cheia de você mesma, assim, limpa. O rosto nu de qualquer outro mundo que tentasse te invadir e te mudar, as montanhas esverdeando-se com uma vegetação que subitamente surgira pelo sal das tuas lágrimas, tornando seus olhos tão verdes quanto a palmeira que parava de fingir chuva, porque suas folhas estavam molhadas e não faziam barulho que pudesse se perceber diante da tempestade que rasgava os céus e saltava às vezes para dentro da nossa janela, molhando um pouquinho o carpete manchado das outras chuvas.
E então eu era definitivamente aquilo tudo que era você, pois já não era o menino de dedos sujos de tinta, de camisa amarrotada que jogava bolinha de gude no colégio, nem o garotinho no banquinho capenga, esquecido no canto do camarim, observando aquelas mulheres que passavam apressadas se trocando. Os corpos torneados da adolescência tornavam-se relevo desgastado de um lugar que nunca fui, também as pernas já não eram nem as minhas nem as outras, eram as suas. E a chuva lá fora que castigava esse mundo que antecedera você, que agora se desfazia como pele morta do passado, ia apagando o futuro poeta, a futura mãe, o futuro homem; carregava nas suas correntezas o universo que te prendia e que me prendia para fora de você antes mesmo de eu te descobrir.
Chora, minha menina, chora que teu pranto move as águas de todos os outros mundos, que não se sustentam diante da correnteza que salta dos teus olhos pela janela. Chora, que a chuva cai mais e mais forte, arrasta casas, vidas e desesperos, que ela não para nunca e irá chover até que corra para dentro do bueiro o próprio bueiro, enquanto eu sou cada vez mais interno ao seu umbigo-do-mundo, enquanto sumo para dentro de você definitivamente, sem dizer adeus a mim, pois já não conheço ‘eu-mesmo’ que não seja ‘você-mesma’, que enquanto essa água toda não nos atinge e nos leva junto na mistura pegajosa da nostalgia que deixei de sentir, eu ainda posso ouvir um ou outro coqueiro lá no fundo, a assobiar com o seu suspiro.

sexta-feira, agosto 27, 2010

Quando encontrei Bernarda Alba em seu vestido preto e seus vitrais avermelhados



Eu era menina. Não sentia as mãos raladas e doloridas, nem os olhos fundos de rotina. Não sabia deixar escorrer pelo meu rosto o suor do meu trabalho, nem limpar a maquiagem borrada e tampoco sabia que choro tem fim.
Então cheguei em frente aos vitrais rubros de Bernarda Alba, o seu vestido negro fazendo os cacos de vidro vibrarem dentro de uma lógica casta absurda. Sua gola alva se erguendo imponente pelo pescoço rígido, logo abaixo dos lábios coloridos de um vermelho quase sacro. Eu não poderia entender, por mais que quisesse, quem era aquela mulher que se erguia sobre mim, e porque sua boca era tão torta e suas mãos curvas, cheias de garras. Não conseguiria entender por mais que contemplasse o seu andar doloroso, as rugas vincadas na sua face, as raízes que se arrastavam pelo seu corpo, sustentando os mil anos que vieram antes dela. Porque não era contemplando que eu poderia entender, era sendo. Então eu tentei ser, eu arrisquei as minhas pernas sem cicatrizes dentro dos sapatos doloridos daquela mulher. E turvei minha boca ainda nova numa dor, numa angústia que eu nunca tive. Eu tentei sentir meu útero feito pedra, porque era só assim que eu poderia ter um pouco do incomunal daquela mulher. Pouco a pouco as raízes novas se fincaram na minha pele de dezenove anos, tão lisa e sem história, rasgando a carne para abrir espaço para toda aquela crença, aquela vida, aquela força impetuosa de um touro que sobrevive e se impõe, transformando meu couro envelhecido e surrado, minhas mãos frias e exatas, meu sangue grosso e vibrante de andaluza, um que nem eu sabia que tinha.
Eu fui Mulher, vertiginosa, ferida, menina. Eu tive as marcas das ruas de pedra bem aqui, nesses dedos que agora escrevem, nesses meus pés que me carregam. Eu tive o ódio de ser mulher e ser só, das botas de montaria, dos pés que perderam o sapateado andaluz, que agora relincham nervosos contra o fim dos ideais que nem eram meus, eram dela.
Quando me virei e fui embora, ainda raiavam de luz os vitrais vermelhos, mas agora eram de sangue não abençoado. As rendas do vestido de Bernarda se confundiam com as rendas da minha saia rodada, e acho que carreguei um terço. Agora eu tenho joanetes que se mostram, tenho olheiras. O suor brilha nas têmporas nos dias de trabalho e eu deixo brilhar. Se sou mulher? Menina ainda sou nos dias de samba, quando coloco o vestido cintado e tenho flor no cabelo.

imagem: Vitral de Chartres

quinta-feira, abril 15, 2010

drop



Subia a fumaça do cigarro tão devagar quanto num filme antigo, os dois deitados, largados, juntos, calados. Ou será que só eu me calava? Uma luz ali de fora, quando se abria um ou dois dedos de janela, entrava a cegar meus olhos, amarelada.

- A luz parece que tem um milhão de auréolas que ficam piscando no olho da gente depois que a gente pára de olhar. Parece um monte de anjos... Rodando, tentando ver nossa alma aqui dentro do olho...

Meus olhos agora ficavam cheios de bolinhas piscando, olhando dentro das minhas pupilas vazias. Eu tragava o cigarro como quem canta uma nota conhecida, a boca não se tensionava, a fumaça corria na garganta, os olhos se fechavam pra esconder daquele bando de anjos uma alma que nem eu mesma conhecia. E a fumaça corria pra fora da boca, contínua, segura, amarelando com a luz que vinha lá de fora. Eu saía pela rua procurando por Marina. Eu também via aquele par de sapatos vermelhos de não sei quantos mil réis (que só duravam um mês) andando tortos pelas ruas da cidade, também ia me esconder no cinema querendo ser Marina. Tropeçava nas raízes da árvore que era Marina, suas pernas-madeira se agarrando naquele chão todo, apertando meu estômago também, torcendo minhas entranhas enquanto eu tentava ser tua Marina. O bucho vazio que ela agora carregava pelo menos era mais leve. Marina se rasgava frente a mim, feito papel molhado, desmontava enquanto eu mentia que era ela, enquanto minha reza baixa corria pela terra tentando alcançar alguém que a ouvisse. Nunca soube rezar. Os joelhos doeram tanto quando me fizeram ajoelhar no banco envernizado que esqueci o que tinha que falar, só lembrei da dor. E cada vez que tentava rezar, só vinha a dor; dos joelhos, dos pés, dos dedos, da alma roída que eu não conhecia. A reza ficava assim, curta, sempre sem jeito de ser falada pra santo, era mais um ganido.
Esse quarto é tão vazio quando fecha a janela, quando aquela luz lá do poste não bate nos meus olhos, quando só tenho duas pernas, quando nada se fala nem se ouve, quando a reza pára de rastejar e fica presa no carpete, a porta fechada, o cinzeiro tão cheio e a minha boca vazia de melodias...

- Eu quero sentar em cima dos arcos da Lapa e ver o Circo Voador.

Esses seus joelhos cheios de cicatrizes de velha meninice bem que poderiam te projetar lá pra cima do Arcos, pra deixar os seus olhos brincarem de trapezista caindo na paisagem toda e se balançando, tentando se equilibrar na linha do horizonte. Ai que eles sempre se balançam quando se lançam dentro dos meus, bem sei. Ficam com os pés presos nas suas pálpebras e as mãos tentando fazer os meus se lançarem também. Mas não me lanço, meus joelhos são lisos e fracos e mal servem para sambar, quem diria pra pular dessa altura... Só sei seguir passo inventado, com alguma força e delicadeza, posso te ensinar se quiser. Sei que você só sabe calçar seus próprios passos com esses pés que deus arranjou e também sei bem que você não acredita que os passos já existiam antes e a gente só pisa naqueles que tem que pisar... E não gosta se eu digo que deus esconde os dados que joga. Por que mesmo era silêncio agora? Ai, que com os olhos fechados essas pintinhas de luz ainda insistem em brilhar nas pálpebras da gente... Acho que uma pergunta sua se enroscou na fumaça do cigarro e ficou parada no ar, enquanto seus olhos me encaram atrás de resposta. Ah, por que eu me sinto solta como uma personagem de uma música quando você me olha assim? Porque eu não posso ser Marina. Porque meus sapatos são baixos e pretos, porque meus vestidos verdes não chegam aos pés do azul de prima Luiza, porque eu fico me enchendo de meios pelos quais existir sem tem que ser por você. E essa luz que fica perseguindo minhas pupilas, essa fumaça toda que se pendura nos meus pulmões, esse meu sussurro velado, rasgado correndo pela casa é o que me faz, o que me afirma porque meus pés não se fincam no chão, meus olhos não mergulham e meus dedos só batucam barulhos conhecidos. Sua pergunta, qual era mesmo? Sim, ainda continuarei de olhos fechados me escondendo desses anjos todos.

quarta-feira, julho 29, 2009

Lime, light.


Janela, ela atrás. Olha pela janela com uns olhos que se alongam fora do batente, inteiros, amendoados, coloridos de castanho. Se alongam pela rua de pedra retrógrada, olhos policiais buscando não sei bem o quê. O vestido bem cintado de rendas e bordados delimita a linha dos ombros deixando os ossos bem marcados no colo, o pescoço que se alonga junto com aqueles olhos... Os braços tocam levemente a beirada da janela e o joelho descansa na parede. Respirar, tão importante e fácil de esquecer, respirar inteiramente, fundo, para os pulmões se inflarem como balões de festa e o diafragma quase estourar feito elástico: o peito sobe num movimento gradativo e depois desaba, jogando o ar pra fora.
O interior do cômodo porta-se como as rendas do vestido: detalha silenciosamente os pontos necessários. Assim há algum lugar para se deitar, alguma flor, alguma velha foto, talvez uma música. Na verdade pouco importa uma vez que os olhos estão todos nas pedras da rua.
Passam uns pés por essas pedras. Uns pés bem calçados, outros andando pingentes, apertados em números menores, fugindo em buracos ocasionais... Pés descalços apoiando-se em calos para amenizar o calor que sobe das pedras, pés relaxados, pés cheios de pressa. Também pouco importa os pés, os olhos ainda se alongam mais além dos pés e das pedras. Vão até a rua de cima, até a avenida, a praça, a estação de trem, pelos trilhos correm ansiosos, famintos. Pelos trilhos correm através das matas e das rodovias, olham pela janela e a paisagem nunca é a mesma. Olham nos olhos dos reflexos das janelas, as casas do caminho, perdidas. O cheiro das árvores, que lembra o cheiro de limão verde recém cortado, invade as narinas por meio do nervo óptico, ah, o frescor dos pinheiros do caminho... A outra estação, fora da cidade, entre dois mundos diferentes, o telhado cinza e os trens que nunca param.
Então os olhos vêem o piso lustrado, antigo, e os sapatos que rangem nele, numa melodia familiar, tantan tantantantan, tantan, tan tantan... Os pontos da renda do vestido começam a se desfazer pelos dedos que o transpassam, assim como os elementos no cômodo se distanciaram para dar passagem àqueles outros olhos. A melodia é mais intensa, os ossos do colo se movem, o pescoço longo se contrai com o arfar que chega até ele. Vão para longe estações, trens, casas, trilhos e pinheiros. Os braços se levantam, o joelho enrijece e os olhos se retiram da janela, mergulhando enfim naqueles outros que pareciam demorar tanto a chegar.

Imagem: daqui, via google

quinta-feira, janeiro 08, 2009

Losing my Religion



Ouve o meu nome, esse é o meu nome. É meu nome quando calas ao ver meu sorriso, com a malícia de ser tão atrevida quanto criança quando respondo tuas perguntas retóricas. Meu nome, soletrado, com ódio ou paixão quando te arranco a ferro o olhar superior que tenta te convencer que já não há nada de mim em ti, quando te cravo minhas unhas e logo largo, deixo aí seu corpo se esvaindo sem chegar a mim.
Amor é meu nome em todas as línguas que lambem, em tantas outras que me procuram. É esse, o nome que grita quando confunde minhas pernas, embrenhado em corpos onde procura a m o r, que grita na rua, desvairado, não sabendo quem é o dono, amor capitativo, possessivo.
É esse, esse é meu nome que dedica a outrém, oblata nos altares, o nome alcunhado do teu medo invadido por meu asco é esse que carrego, que retalha, que fura, que rasga. É esse esquecido, rasgado a hora que me rompo a procura de ti, amor, esse é o meu nome, é meu nome quando rompe o dia. Quando te vejo aqui, contornando meu corpo, buscando um jeito de te reconhecer em mim, quando já não há entrelaços nos nossos corpos nos agarrando um ao outro e nos resta agarrar na crueldade de cada um.
Amor é como me chamas quando arranca de mim dois átrios, e o peito dilacerado, um tanto de corpo que já não cria chagas que dão conta, ri descrente da tua fuga. É assim que me apresento quando me vejo em tuas entranhas e já não me reconheço: mudas o meu rosto.
É o nome que também chamo quando me gruda na cintura, e chamo para que não me largue a beira de te largar. É o que evito e sei que também evitas, mas esse é o nome que mais gostas de ouvir: o meu.


Imagem: Juliette Binoche em A Liberdade é Azul
Soundtrack: R.E.M (obvious)