
Na mistura de cola e papel os dedos são incisivos, malhando a perfeita combinação heterogênea de acetato de polivinila e celulose em faces desconhecidas.
Havia um certo quê em comum entre todas ela, talvez fora o furinho inoportuno de queixo ou o rosto largo, ainda que sempre mudasse as bochechas e nunca reutilizasse os olhos: eram únicos demais para serem reutilizados.Acinzentava as unhas com a mescla, que buscava conforto por entre minhas extintas cutículas e cantos de pele, sentindo na sua frieza de papel o calor frio das mãos trabalhantes que ausentavam-se de seu querer. A massa engolia o que se emanava pelos poros da pele, entre suor e nervosismo, os fluidos daquele sentimento mais inerente à existência de mim, que ali depositava meus dias vazios de não se sabe o que, seguidos pelas noites cheias de espera por não sei quem, e a chegada de ninguém, que encostava-se no mais fundo de meu colo e brincava nos átrios do coração com sua presença gélida, esvaziando cada cava do meu eu, deixando a vaga daquela onda que por tanto permeou em meus cantos, minhas notas e meus passos de dança.
Revolvia a massa a bailar por entre meus dedos como bailavam os de quem não conseguia saber, havia algo tão familiar naquelas formas perfeitas que eram modeladas sobre o gesso impessoal, a cola grudando pobremente os cacos de lembrança que vinham com aquele não sei que fluido misterioso que cheirava a anemia. O soluço batia na garganta, nota sustenida da canção que fora engolida com muitos ácidos acetilsalicílicos e composições de hidrogênio, oxigênio e sais minerais. Exalava aqui fora junto com as noites mal dormidas e as poucas horas de conforto irregular no tato que cheirava a água e pele.
Acabava seguido por uma torrencial liberação de lágrimas insalubres, havia água por todos os lados. As gotas caíam formando sulcos na massa que traziam não sei qual ponto entre os cabelos e os ombros, onde cabia perfeitamente meu pescoço saudoso e confortava meu queixo no começo das costas largas que alumiavam meus olhos vazios de multidão com seu calor que acinzentava agora na massa arruinada pelas lágrimas.
As águas para todos os lados caíam, agora eu era uma parte dele, ele é uma parte de mim: ocupa noventa e tantos por cento do meu corpo, que, cansado, exprimia por todo e qualquer menor saída possível a presença dele que trazia esse não sei o quê de vital para mim. Logo, pude perceber que havia de me cortar e voltar inteira, era tão parte de mim que agora sou como a cola na mistura: uma pequena parte que tenta desesperadamente grudar, ainda que com ineficiência, cada parte de papel que em mim é depositada, tornando-me ausente de mim e presente dele, com seus furinhos de queixo, no seu encaixe perfeito do meu pescoço, o nariz arrebitadinho e as bochechas cheirosas de não sei bem qual motivo.
Sempre mudei as bochechas e nunca lhe utilizei os olhos, a cegueira luminosa que me trazia conduzia meus dedos frios de seu contato para modelar-lhe na massa, ah, és pretensioso! A tal, embebida nessa luz toda e farta de minha presença, tomava as rédeas da criação e me mandava volver. Hesitava, hei de reaver meu cantinho entre os ombros e os cabelos outrora tão meus, mais meus que a sua presença em mim? Ainda aqui nos sulcos de mim, passeiam as mãos daquele não sei qual vazio alojado no peito que ele ocupava.
Colo ingrato, que fareja aquele não sei qual cheiro anêmico de tanto desejo que torna meu melhor prazer, conduziste-me à procura de não sei qual rosto largo rodeado pelas lágrimas que agora escorrem para fora da cola os pedaços cinzas de papel.
Deito fora aqui toda combinação de vinil e celulose num disco bem surrado de músicas nossas.
Havia um certo quê em comum entre todas ela, talvez fora o furinho inoportuno de queixo ou o rosto largo, ainda que sempre mudasse as bochechas e nunca reutilizasse os olhos: eram únicos demais para serem reutilizados.Acinzentava as unhas com a mescla, que buscava conforto por entre minhas extintas cutículas e cantos de pele, sentindo na sua frieza de papel o calor frio das mãos trabalhantes que ausentavam-se de seu querer. A massa engolia o que se emanava pelos poros da pele, entre suor e nervosismo, os fluidos daquele sentimento mais inerente à existência de mim, que ali depositava meus dias vazios de não se sabe o que, seguidos pelas noites cheias de espera por não sei quem, e a chegada de ninguém, que encostava-se no mais fundo de meu colo e brincava nos átrios do coração com sua presença gélida, esvaziando cada cava do meu eu, deixando a vaga daquela onda que por tanto permeou em meus cantos, minhas notas e meus passos de dança.
Revolvia a massa a bailar por entre meus dedos como bailavam os de quem não conseguia saber, havia algo tão familiar naquelas formas perfeitas que eram modeladas sobre o gesso impessoal, a cola grudando pobremente os cacos de lembrança que vinham com aquele não sei que fluido misterioso que cheirava a anemia. O soluço batia na garganta, nota sustenida da canção que fora engolida com muitos ácidos acetilsalicílicos e composições de hidrogênio, oxigênio e sais minerais. Exalava aqui fora junto com as noites mal dormidas e as poucas horas de conforto irregular no tato que cheirava a água e pele.
Acabava seguido por uma torrencial liberação de lágrimas insalubres, havia água por todos os lados. As gotas caíam formando sulcos na massa que traziam não sei qual ponto entre os cabelos e os ombros, onde cabia perfeitamente meu pescoço saudoso e confortava meu queixo no começo das costas largas que alumiavam meus olhos vazios de multidão com seu calor que acinzentava agora na massa arruinada pelas lágrimas.
As águas para todos os lados caíam, agora eu era uma parte dele, ele é uma parte de mim: ocupa noventa e tantos por cento do meu corpo, que, cansado, exprimia por todo e qualquer menor saída possível a presença dele que trazia esse não sei o quê de vital para mim. Logo, pude perceber que havia de me cortar e voltar inteira, era tão parte de mim que agora sou como a cola na mistura: uma pequena parte que tenta desesperadamente grudar, ainda que com ineficiência, cada parte de papel que em mim é depositada, tornando-me ausente de mim e presente dele, com seus furinhos de queixo, no seu encaixe perfeito do meu pescoço, o nariz arrebitadinho e as bochechas cheirosas de não sei bem qual motivo.
Sempre mudei as bochechas e nunca lhe utilizei os olhos, a cegueira luminosa que me trazia conduzia meus dedos frios de seu contato para modelar-lhe na massa, ah, és pretensioso! A tal, embebida nessa luz toda e farta de minha presença, tomava as rédeas da criação e me mandava volver. Hesitava, hei de reaver meu cantinho entre os ombros e os cabelos outrora tão meus, mais meus que a sua presença em mim? Ainda aqui nos sulcos de mim, passeiam as mãos daquele não sei qual vazio alojado no peito que ele ocupava.
Colo ingrato, que fareja aquele não sei qual cheiro anêmico de tanto desejo que torna meu melhor prazer, conduziste-me à procura de não sei qual rosto largo rodeado pelas lágrimas que agora escorrem para fora da cola os pedaços cinzas de papel.
Deito fora aqui toda combinação de vinil e celulose num disco bem surrado de músicas nossas.
Obra de Arte: Frida Kahlo, "Lo que vi en el agua o Lo que el agua me dio", 1938
Yo soy lo que el agua me dio.


Um comentário:
Tô louca pra ver o filme sobre ela :)
Vc já viu? beijos :*
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