
Subia a fumaça do cigarro tão devagar quanto num filme antigo, os dois deitados, largados, juntos, calados. Ou será que só eu me calava? Uma luz ali de fora, quando se abria um ou dois dedos de janela, entrava a cegar meus olhos, amarelada.
- A luz parece que tem um milhão de auréolas que ficam piscando no olho da gente depois que a gente pára de olhar. Parece um monte de anjos... Rodando, tentando ver nossa alma aqui dentro do olho...
Meus olhos agora ficavam cheios de bolinhas piscando, olhando dentro das minhas pupilas vazias. Eu tragava o cigarro como quem canta uma nota conhecida, a boca não se tensionava, a fumaça corria na garganta, os olhos se fechavam pra esconder daquele bando de anjos uma alma que nem eu mesma conhecia. E a fumaça corria pra fora da boca, contínua, segura, amarelando com a luz que vinha lá de fora. Eu saía pela rua procurando por Marina. Eu também via aquele par de sapatos vermelhos de não sei quantos mil réis (que só duravam um mês) andando tortos pelas ruas da cidade, também ia me esconder no cinema querendo ser Marina. Tropeçava nas raízes da árvore que era Marina, suas pernas-madeira se agarrando naquele chão todo, apertando meu estômago também, torcendo minhas entranhas enquanto eu tentava ser tua Marina. O bucho vazio que ela agora carregava pelo menos era mais leve. Marina se rasgava frente a mim, feito papel molhado, desmontava enquanto eu mentia que era ela, enquanto minha reza baixa corria pela terra tentando alcançar alguém que a ouvisse. Nunca soube rezar. Os joelhos doeram tanto quando me fizeram ajoelhar no banco envernizado que esqueci o que tinha que falar, só lembrei da dor. E cada vez que tentava rezar, só vinha a dor; dos joelhos, dos pés, dos dedos, da alma roída que eu não conhecia. A reza ficava assim, curta, sempre sem jeito de ser falada pra santo, era mais um ganido.
Esse quarto é tão vazio quando fecha a janela, quando aquela luz lá do poste não bate nos meus olhos, quando só tenho duas pernas, quando nada se fala nem se ouve, quando a reza pára de rastejar e fica presa no carpete, a porta fechada, o cinzeiro tão cheio e a minha boca vazia de melodias...
- Eu quero sentar em cima dos arcos da Lapa e ver o Circo Voador.
Esses seus joelhos cheios de cicatrizes de velha meninice bem que poderiam te projetar lá pra cima do Arcos, pra deixar os seus olhos brincarem de trapezista caindo na paisagem toda e se balançando, tentando se equilibrar na linha do horizonte. Ai que eles sempre se balançam quando se lançam dentro dos meus, bem sei. Ficam com os pés presos nas suas pálpebras e as mãos tentando fazer os meus se lançarem também. Mas não me lanço, meus joelhos são lisos e fracos e mal servem para sambar, quem diria pra pular dessa altura... Só sei seguir passo inventado, com alguma força e delicadeza, posso te ensinar se quiser. Sei que você só sabe calçar seus próprios passos com esses pés que deus arranjou e também sei bem que você não acredita que os passos já existiam antes e a gente só pisa naqueles que tem que pisar... E não gosta se eu digo que deus esconde os dados que joga. Por que mesmo era silêncio agora? Ai, que com os olhos fechados essas pintinhas de luz ainda insistem em brilhar nas pálpebras da gente... Acho que uma pergunta sua se enroscou na fumaça do cigarro e ficou parada no ar, enquanto seus olhos me encaram atrás de resposta. Ah, por que eu me sinto solta como uma personagem de uma música quando você me olha assim? Porque eu não posso ser Marina. Porque meus sapatos são baixos e pretos, porque meus vestidos verdes não chegam aos pés do azul de prima Luiza, porque eu fico me enchendo de meios pelos quais existir sem tem que ser por você. E essa luz que fica perseguindo minhas pupilas, essa fumaça toda que se pendura nos meus pulmões, esse meu sussurro velado, rasgado correndo pela casa é o que me faz, o que me afirma porque meus pés não se fincam no chão, meus olhos não mergulham e meus dedos só batucam barulhos conhecidos. Sua pergunta, qual era mesmo? Sim, ainda continuarei de olhos fechados me escondendo desses anjos todos.

