quarta-feira, julho 29, 2009

Lime, light.


Janela, ela atrás. Olha pela janela com uns olhos que se alongam fora do batente, inteiros, amendoados, coloridos de castanho. Se alongam pela rua de pedra retrógrada, olhos policiais buscando não sei bem o quê. O vestido bem cintado de rendas e bordados delimita a linha dos ombros deixando os ossos bem marcados no colo, o pescoço que se alonga junto com aqueles olhos... Os braços tocam levemente a beirada da janela e o joelho descansa na parede. Respirar, tão importante e fácil de esquecer, respirar inteiramente, fundo, para os pulmões se inflarem como balões de festa e o diafragma quase estourar feito elástico: o peito sobe num movimento gradativo e depois desaba, jogando o ar pra fora.
O interior do cômodo porta-se como as rendas do vestido: detalha silenciosamente os pontos necessários. Assim há algum lugar para se deitar, alguma flor, alguma velha foto, talvez uma música. Na verdade pouco importa uma vez que os olhos estão todos nas pedras da rua.
Passam uns pés por essas pedras. Uns pés bem calçados, outros andando pingentes, apertados em números menores, fugindo em buracos ocasionais... Pés descalços apoiando-se em calos para amenizar o calor que sobe das pedras, pés relaxados, pés cheios de pressa. Também pouco importa os pés, os olhos ainda se alongam mais além dos pés e das pedras. Vão até a rua de cima, até a avenida, a praça, a estação de trem, pelos trilhos correm ansiosos, famintos. Pelos trilhos correm através das matas e das rodovias, olham pela janela e a paisagem nunca é a mesma. Olham nos olhos dos reflexos das janelas, as casas do caminho, perdidas. O cheiro das árvores, que lembra o cheiro de limão verde recém cortado, invade as narinas por meio do nervo óptico, ah, o frescor dos pinheiros do caminho... A outra estação, fora da cidade, entre dois mundos diferentes, o telhado cinza e os trens que nunca param.
Então os olhos vêem o piso lustrado, antigo, e os sapatos que rangem nele, numa melodia familiar, tantan tantantantan, tantan, tan tantan... Os pontos da renda do vestido começam a se desfazer pelos dedos que o transpassam, assim como os elementos no cômodo se distanciaram para dar passagem àqueles outros olhos. A melodia é mais intensa, os ossos do colo se movem, o pescoço longo se contrai com o arfar que chega até ele. Vão para longe estações, trens, casas, trilhos e pinheiros. Os braços se levantam, o joelho enrijece e os olhos se retiram da janela, mergulhando enfim naqueles outros que pareciam demorar tanto a chegar.

Imagem: daqui, via google

quinta-feira, janeiro 08, 2009

Losing my Religion



Ouve o meu nome, esse é o meu nome. É meu nome quando calas ao ver meu sorriso, com a malícia de ser tão atrevida quanto criança quando respondo tuas perguntas retóricas. Meu nome, soletrado, com ódio ou paixão quando te arranco a ferro o olhar superior que tenta te convencer que já não há nada de mim em ti, quando te cravo minhas unhas e logo largo, deixo aí seu corpo se esvaindo sem chegar a mim.
Amor é meu nome em todas as línguas que lambem, em tantas outras que me procuram. É esse, o nome que grita quando confunde minhas pernas, embrenhado em corpos onde procura a m o r, que grita na rua, desvairado, não sabendo quem é o dono, amor capitativo, possessivo.
É esse, esse é meu nome que dedica a outrém, oblata nos altares, o nome alcunhado do teu medo invadido por meu asco é esse que carrego, que retalha, que fura, que rasga. É esse esquecido, rasgado a hora que me rompo a procura de ti, amor, esse é o meu nome, é meu nome quando rompe o dia. Quando te vejo aqui, contornando meu corpo, buscando um jeito de te reconhecer em mim, quando já não há entrelaços nos nossos corpos nos agarrando um ao outro e nos resta agarrar na crueldade de cada um.
Amor é como me chamas quando arranca de mim dois átrios, e o peito dilacerado, um tanto de corpo que já não cria chagas que dão conta, ri descrente da tua fuga. É assim que me apresento quando me vejo em tuas entranhas e já não me reconheço: mudas o meu rosto.
É o nome que também chamo quando me gruda na cintura, e chamo para que não me largue a beira de te largar. É o que evito e sei que também evitas, mas esse é o nome que mais gostas de ouvir: o meu.


Imagem: Juliette Binoche em A Liberdade é Azul
Soundtrack: R.E.M (obvious)

domingo, dezembro 07, 2008



Deixar o dia correr, vê-lo corrente, segue sem rumo, furtivamente. Continuo seguindo, mil passos em meio, como correr tão distante, se vivo ecoante, se tenho que ser

um

minuto

de

cada

vez

?

Imagem: fotografia por Mayara Lima
Sarau Casa do Teatro, dezembro de 2008.

sexta-feira, outubro 10, 2008

Para além do Círculo Polar Ártico


Quando o sol entrou em Libra, o primeiro dia foi de chuva. Então, por três dias o sol entrou pela janela secando a parte de água que havia se acumulado no assoalho. Nos dias seguintes, ventou.

Durante os anos anteriores - e os próximos anos que virão - a chuva, que fugia da décima primeira casa, caía logo ali, sete meses depois, após os oito primeiros dias de Libra, o chuvaréu fugia do aguadouro e caía estrondoroso sobre os pratos de metal. Logo após, era vento.

Eram agora feitas dezessete noites primaverís, agora já não ventava, a inclinação da Terra fazia outras sombras, e Urano errou de lugar e entrou em Escorpião, agora tudo fazia muito impacto e revolução em cada vida, as andorinhas ainda estão fugidas com o verão e aquele desejo de liberdade que secava o aguadouro tornara-se in-sa-ci-á-vel.

Então veio; e a vinda, que era Sol da Meia-Noite nestes olhos, ficou para sempre entardecer. Nótus assoprou, e seu sopro formou as nuvens que aqui encobrem meus olhos, as gotas de chuva acertam bem na íris e caem ralas pelas pupilas, grandes bocas que se abrem e se fecham a cada raiar d'algo. Oitenta e nove dias, vinte horas e dezesseis minutos, neste momento já subtrairam-se dezoito dias; Libra equinociando o renascer não tem mínimo ou total conhecimento de seu sucumbir em meio de tanta água.

Agora é silêncio e Éris sussurra nos ouvidos da humanidade. Não há problema, o sol ainda está em Libra, o aguadouro transborda e, na realidade, Urano ainda não saiu de Peixes.

Quando vens, faço Aurora. Mas tu sempre chegas Boreas.

Imagem: Boreas, de John William Waterhouse (1849-1917)

segunda-feira, maio 19, 2008

Papier-Maché


Na mistura de cola e papel os dedos são incisivos, malhando a perfeita combinação heterogênea de acetato de polivinila e celulose em faces desconhecidas.
Havia um certo quê em comum entre todas ela, talvez fora o furinho inoportuno de queixo ou o rosto largo, ainda que sempre mudasse as bochechas e nunca reutilizasse os olhos: eram únicos demais para serem reutilizados.Acinzentava as unhas com a mescla, que buscava conforto por entre minhas extintas cutículas e cantos de pele, sentindo na sua frieza de papel o calor frio das mãos trabalhantes que ausentavam-se de seu querer. A massa engolia o que se emanava pelos poros da pele, entre suor e nervosismo, os fluidos daquele sentimento mais inerente à existência de mim, que ali depositava meus dias vazios de não se sabe o que, seguidos pelas noites cheias de espera por não sei quem, e a chegada de ninguém, que encostava-se no mais fundo de meu colo e brincava nos átrios do coração com sua presença gélida, esvaziando cada cava do meu eu, deixando a vaga daquela onda que por tanto permeou em meus cantos, minhas notas e meus passos de dança.
Revolvia a massa a bailar por entre meus dedos como bailavam os de quem não conseguia saber, havia algo tão familiar naquelas formas perfeitas que eram modeladas sobre o gesso impessoal, a cola grudando pobremente os cacos de lembrança que vinham com aquele não sei que fluido misterioso que cheirava a anemia. O soluço batia na garganta, nota sustenida da canção que fora engolida com muitos ácidos acetilsalicílicos e composições de hidrogênio, oxigênio e sais minerais. Exalava aqui fora junto com as noites mal dormidas e as poucas horas de conforto irregular no tato que cheirava a água e pele.
Acabava seguido por uma torrencial liberação de lágrimas insalubres, havia água por todos os lados. As gotas caíam formando sulcos na massa que traziam não sei qual ponto entre os cabelos e os ombros, onde cabia perfeitamente meu pescoço saudoso e confortava meu queixo no começo das costas largas que alumiavam meus olhos vazios de multidão com seu calor que acinzentava agora na massa arruinada pelas lágrimas.
As águas para todos os lados caíam, agora eu era uma parte dele, ele é uma parte de mim: ocupa noventa e tantos por cento do meu corpo, que, cansado, exprimia por todo e qualquer menor saída possível a presença dele que trazia esse não sei o quê de vital para mim. Logo, pude perceber que havia de me cortar e voltar inteira, era tão parte de mim que agora sou como a cola na mistura: uma pequena parte que tenta desesperadamente grudar, ainda que com ineficiência, cada parte de papel que em mim é depositada, tornando-me ausente de mim e presente dele, com seus furinhos de queixo, no seu encaixe perfeito do meu pescoço, o nariz arrebitadinho e as bochechas cheirosas de não sei bem qual motivo.
Sempre mudei as bochechas e nunca lhe utilizei os olhos, a cegueira luminosa que me trazia conduzia meus dedos frios de seu contato para modelar-lhe na massa, ah, és pretensioso! A tal, embebida nessa luz toda e farta de minha presença, tomava as rédeas da criação e me mandava volver. Hesitava, hei de reaver meu cantinho entre os ombros e os cabelos outrora tão meus, mais meus que a sua presença em mim? Ainda aqui nos sulcos de mim, passeiam as mãos daquele não sei qual vazio alojado no peito que ele ocupava.
Colo ingrato, que fareja aquele não sei qual cheiro anêmico de tanto desejo que torna meu melhor prazer, conduziste-me à procura de não sei qual rosto largo rodeado pelas lágrimas que agora escorrem para fora da cola os pedaços cinzas de papel.
Deito fora aqui toda combinação de vinil e celulose num disco bem surrado de músicas nossas.


Obra de Arte: Frida Kahlo, "Lo que vi en el agua o Lo que el agua me dio", 1938
Yo soy lo que el agua me dio.