Janela, ela atrás. Olha pela janela com uns olhos que se alongam fora do batente, inteiros, amendoados, coloridos de castanho. Se alongam pela rua de pedra retrógrada, olhos policiais buscando não sei bem o quê. O vestido bem cintado de rendas e bordados delimita a linha dos ombros deixando os ossos bem marcados no colo, o pescoço que se alonga junto com aqueles olhos... Os braços tocam levemente a beirada da janela e o joelho descansa na parede. Respirar, tão importante e fácil de esquecer, respirar inteiramente, fundo, para os pulmões se inflarem como balões de festa e o diafragma quase estourar feito elástico: o peito sobe num movimento gradativo e depois desaba, jogando o ar pra fora.
O interior do cômodo porta-se como as rendas do vestido: detalha silenciosamente os pontos necessários. Assim há algum lugar para se deitar, alguma flor, alguma velha foto, talvez uma música. Na verdade pouco importa uma vez que os olhos estão todos nas pedras da rua.
Passam uns pés por essas pedras. Uns pés bem calçados, outros andando pingentes, apertados em números menores, fugindo em buracos ocasionais... Pés descalços apoiando-se em calos para amenizar o calor que sobe das pedras, pés relaxados, pés cheios de pressa. Também pouco importa os pés, os olhos ainda se alongam mais além dos pés e das pedras. Vão até a rua de cima, até a avenida, a praça, a estação de trem, pelos trilhos correm ansiosos, famintos. Pelos trilhos correm através das matas e das rodovias, olham pela janela e a paisagem nunca é a mesma. Olham nos olhos dos reflexos das janelas, as casas do caminho, perdidas. O cheiro das árvores, que lembra o cheiro de limão verde recém cortado, invade as narinas por meio do nervo óptico, ah, o frescor dos pinheiros do caminho... A outra estação, fora da cidade, entre dois mundos diferentes, o telhado cinza e os trens que nunca param.
Então os olhos vêem o piso lustrado, antigo, e os sapatos que rangem nele, numa melodia familiar, tantan tantantantan, tantan, tan tantan... Os pontos da renda do vestido começam a se desfazer pelos dedos que o transpassam, assim como os elementos no cômodo se distanciaram para dar passagem àqueles outros olhos. A melodia é mais intensa, os ossos do colo se movem, o pescoço longo se contrai com o arfar que chega até ele. Vão para longe estações, trens, casas, trilhos e pinheiros. Os braços se levantam, o joelho enrijece e os olhos se retiram da janela, mergulhando enfim naqueles outros que pareciam demorar tanto a chegar.
Imagem: daqui, via google





