Ele era alto e observador. Jamais falava o que não desse a entender que seu maior defeito consistia na sua tendência para a destruição. E por isso o dizia, alisando os cabelos negros como quem alisa o pêlo macio e quente de um felino. Era uma memória muscular, fazer doer para poder sorrir, dramatizando para a bronca ser menor. Era machucador.
Já o era ao fazer cócegas na irmã até esta chorar, fazê-la chorar apenas por chorar. Era atrativo de lágrimas.
Chegava em mim como se chega um rapazote igual aos demais: posando força e aconchego, inflexível. A mim mostrava-se terno, misterioso. Mas também machucador.
Vez tinha arroubos de ternura, em que enterrava lábios sem beijos nos meus cabelos, e ainda sim era magoador. Machucava nas peles da vaidade de início, e depois nos mantos do coração.
Vez chegava jocoso em seu canto, ao encarar o modo com que eu relutava em chegar a você. E chegava, sempre.
Mas era magoador, feriu as peles da vaidade, os mantos do coração e por fim os núcleos da alma.
E eu dei festas pra ele, dentro de mim. Até quando tudo se tornou menos carnaval. Deixou-se cair na cadeira da indiferença e foi-se indo, drenando as lágrimas de mim. Anjos cegaram-me com o ciúme, fui magoadora.
Ele deixou os cabelos negros de lado: não sabia como era ser machucado. Desapontou. Desapontou no sorriso de canto, nas lágrimas que derrubou, na dor que não causou. Fiquei estática, deliciosamente batida.
Nunca fui machucadora, em mim as dores vieram de início. Logo, sabia como cuidar daqueles lábios sem beijo, das cartas de amor sem amor, dos beijos não roubados, das palavras não ditas.
Porém, ele que era machucador nunca sentira os lábios secos cortando a pele, nunca ouvira o silêncio dos diálogos, nem lera os papéis em branco, cheios de letras.
Logo após ser machucado, foi ver doer em outras o que via em mim. Não encontrou dor que lhe comovesse, nem lágrima satisfeita.
Um dia, a encontrou. A encontrou como ponto neutro: sem beijo de namorada ou carta de despedida. Era neutra, quase tom pastel.
Eu (que não era machucadora, nem pastel), pensava no seu jeito tão dele de (não) chegar, planejando ir acidentalmente aos nossos lugares, rever as casquinhas das feridas que causou. Imaginar o que ela faz para o ter e mais: se ele chega desse jeito tão nosso pra ela também, se brinca com sua timidez e joga com sua graça, se canta pra ela nossa música já batida, se afaga seus lábios sem beijos nos cabelos dela, se a vê nos seus olhos refletidos no espelho e se quando pousa a cabeça no travesseiro, cheira o cheiro dela, assim machucador.
É claro que, assim machucador, mesmo que diga que agora seu coração passeia por novos ares, mesmo escancarando isso para mim, tinha que machucar. E chegar no seu silêncio misterioso, não mais como rapazote forte, nem acariciando os cabelos de gato (ronronante e adorador), chegou naquele nosso íntimo mistério, invadindo meu universo, no fim do meu infinito particular, machucador apenas no abraço. E o seu sorriso desapontador de canto de lábio cantou pra mim aquela canção, sentindo arfar, agora que era machucado e machucador. Fiquei ali, deliciosamente batida, deliciosamente verde, anil, amarelo, cor-de-rosa e carvão.
Imagem: Trecho da obra "O Beijo", Gustav KlimtPost Scriptum: É, estava a ouvir MM...