segunda-feira, maio 19, 2008

Papier-Maché


Na mistura de cola e papel os dedos são incisivos, malhando a perfeita combinação heterogênea de acetato de polivinila e celulose em faces desconhecidas.
Havia um certo quê em comum entre todas ela, talvez fora o furinho inoportuno de queixo ou o rosto largo, ainda que sempre mudasse as bochechas e nunca reutilizasse os olhos: eram únicos demais para serem reutilizados.Acinzentava as unhas com a mescla, que buscava conforto por entre minhas extintas cutículas e cantos de pele, sentindo na sua frieza de papel o calor frio das mãos trabalhantes que ausentavam-se de seu querer. A massa engolia o que se emanava pelos poros da pele, entre suor e nervosismo, os fluidos daquele sentimento mais inerente à existência de mim, que ali depositava meus dias vazios de não se sabe o que, seguidos pelas noites cheias de espera por não sei quem, e a chegada de ninguém, que encostava-se no mais fundo de meu colo e brincava nos átrios do coração com sua presença gélida, esvaziando cada cava do meu eu, deixando a vaga daquela onda que por tanto permeou em meus cantos, minhas notas e meus passos de dança.
Revolvia a massa a bailar por entre meus dedos como bailavam os de quem não conseguia saber, havia algo tão familiar naquelas formas perfeitas que eram modeladas sobre o gesso impessoal, a cola grudando pobremente os cacos de lembrança que vinham com aquele não sei que fluido misterioso que cheirava a anemia. O soluço batia na garganta, nota sustenida da canção que fora engolida com muitos ácidos acetilsalicílicos e composições de hidrogênio, oxigênio e sais minerais. Exalava aqui fora junto com as noites mal dormidas e as poucas horas de conforto irregular no tato que cheirava a água e pele.
Acabava seguido por uma torrencial liberação de lágrimas insalubres, havia água por todos os lados. As gotas caíam formando sulcos na massa que traziam não sei qual ponto entre os cabelos e os ombros, onde cabia perfeitamente meu pescoço saudoso e confortava meu queixo no começo das costas largas que alumiavam meus olhos vazios de multidão com seu calor que acinzentava agora na massa arruinada pelas lágrimas.
As águas para todos os lados caíam, agora eu era uma parte dele, ele é uma parte de mim: ocupa noventa e tantos por cento do meu corpo, que, cansado, exprimia por todo e qualquer menor saída possível a presença dele que trazia esse não sei o quê de vital para mim. Logo, pude perceber que havia de me cortar e voltar inteira, era tão parte de mim que agora sou como a cola na mistura: uma pequena parte que tenta desesperadamente grudar, ainda que com ineficiência, cada parte de papel que em mim é depositada, tornando-me ausente de mim e presente dele, com seus furinhos de queixo, no seu encaixe perfeito do meu pescoço, o nariz arrebitadinho e as bochechas cheirosas de não sei bem qual motivo.
Sempre mudei as bochechas e nunca lhe utilizei os olhos, a cegueira luminosa que me trazia conduzia meus dedos frios de seu contato para modelar-lhe na massa, ah, és pretensioso! A tal, embebida nessa luz toda e farta de minha presença, tomava as rédeas da criação e me mandava volver. Hesitava, hei de reaver meu cantinho entre os ombros e os cabelos outrora tão meus, mais meus que a sua presença em mim? Ainda aqui nos sulcos de mim, passeiam as mãos daquele não sei qual vazio alojado no peito que ele ocupava.
Colo ingrato, que fareja aquele não sei qual cheiro anêmico de tanto desejo que torna meu melhor prazer, conduziste-me à procura de não sei qual rosto largo rodeado pelas lágrimas que agora escorrem para fora da cola os pedaços cinzas de papel.
Deito fora aqui toda combinação de vinil e celulose num disco bem surrado de músicas nossas.


Obra de Arte: Frida Kahlo, "Lo que vi en el agua o Lo que el agua me dio", 1938
Yo soy lo que el agua me dio.

sábado, março 22, 2008

Asfalto


Aquele foi um segundo silenciosamente gratificante, a silhueta conhecida da figura guardada no canto mais secreto do cérebro apareceu quase casualmente diante de minha moradia.
Olhou com seus olhos cheios de gente bem fundo nos meus olhos vazios de mar, bem no momento em que distraí com as compras do mês. De longe provavelmente não tinha certeza se o contato visual fora bem-sucedido, logo antecipou a vinda ao encontro do ser momentaneamente desejado, avançando em seus passos bem conhecidos por aquele asfalto cheio de pedrinhas e buracos, subindo na calçada de terra (primórdios de jardim), frente a casa de formato diferente que havia freqüentado durante diversos dias seguidos por diversas tentativas não coesas de relacionamento estável.
Afundei em sacolas de supermercado carregadas de coisas inúteis: as prateleiras nos lançam magia com suas cores cheias e barulhos de embalagens de plástico prático. Acabamos por atirar as coisas bonitas e com bons preços nos carrinhos que muitas vezes carregamos pelo simples fato de não nos sentirmos em compras de mercado sem carrinhos de metal andando tortos pelos corredores de chão lustrado.
Carreguei várias sacolas em uma única mão, o que resultou em uma delas arrebentada, latas de atum espatifando-se pelo chão. Quatro mãos correram para auxiliar os pobres peixes moídos, consolando-os na sacola de pães. Dessa vez, olho-no-olho foi inevitável, e senti a invasão da população daqueles olhos escuros em meus olhos desabitados, descendo pelo nervo óptico, usando faringe-laringe como via expressa para o coração, outros viajando em hemácias, fazendo-as percorrer todo meu corpo que se esquentara parte a parte, latejando na boca a sensação de sentir-se cheio de novo.
Sabia que não iam se demorar, e logo haveria o êxodo, pois olhos de vaga não aceitam povoação. Fingi, mentira inerente ao ser humano, e conduzi-me adentro pelas mãos na cintura, crentes de dirigir a situação. O beijo quase latino foi conseqüência de nossos atos suicidas de sempre tentar-se povoar, mesmo crédulos de que sou terreno deserto, e que ele é populista. Para total êxito, havíamos de nos aprofundar em campo e metrópole ao mesmo tempo, paixão e metodismo haviam de se misturar em nossas salivas, num amor transcendental, transgressor de tantas regras, estrepado, ensagüentado, reincidente de ser nosso a cada vez que fujo de mim ou ele avança em seus passos bem conhecidos por aquele asfalto de buracos e pedrinhas.

Imagem: fotografado por Mayara Lima
(Após dois meses em balanceamento da Autora, Interferindo volta a tona)

terça-feira, janeiro 22, 2008

Des-apontador



Ele era alto e observador. Jamais falava o que não desse a entender que seu maior defeito consistia na sua tendência para a destruição. E por isso o dizia, alisando os cabelos negros como quem alisa o pêlo macio e quente de um felino. Era uma memória muscular, fazer doer para poder sorrir, dramatizando para a bronca ser menor. Era machucador.
Já o era ao fazer cócegas na irmã até esta chorar, fazê-la chorar apenas por chorar. Era atrativo de lágrimas.
Chegava em mim como se chega um rapazote igual aos demais: posando força e aconchego, inflexível. A mim mostrava-se terno, misterioso. Mas também machucador.
Vez tinha arroubos de ternura, em que enterrava lábios sem beijos nos meus cabelos, e ainda sim era magoador. Machucava nas peles da vaidade de início, e depois nos mantos do coração.
Vez chegava jocoso em seu canto, ao encarar o modo com que eu relutava em chegar a você. E chegava, sempre.
Mas era magoador, feriu as peles da vaidade, os mantos do coração e por fim os núcleos da alma.
E eu dei festas pra ele, dentro de mim. Até quando tudo se tornou menos carnaval. Deixou-se cair na cadeira da indiferença e foi-se indo, drenando as lágrimas de mim. Anjos cegaram-me com o ciúme, fui magoadora.
Ele deixou os cabelos negros de lado: não sabia como era ser machucado. Desapontou. Desapontou no sorriso de canto, nas lágrimas que derrubou, na dor que não causou. Fiquei estática, deliciosamente batida.
Nunca fui machucadora, em mim as dores vieram de início. Logo, sabia como cuidar daqueles lábios sem beijo, das cartas de amor sem amor, dos beijos não roubados, das palavras não ditas.
Porém, ele que era machucador nunca sentira os lábios secos cortando a pele, nunca ouvira o silêncio dos diálogos, nem lera os papéis em branco, cheios de letras.
Logo após ser machucado, foi ver doer em outras o que via em mim. Não encontrou dor que lhe comovesse, nem lágrima satisfeita.
Um dia, a encontrou. A encontrou como ponto neutro: sem beijo de namorada ou carta de despedida. Era neutra, quase tom pastel.
Eu (que não era machucadora, nem pastel), pensava no seu jeito tão dele de (não) chegar, planejando ir acidentalmente aos nossos lugares, rever as casquinhas das feridas que causou. Imaginar o que ela faz para o ter e mais: se ele chega desse jeito tão nosso pra ela também, se brinca com sua timidez e joga com sua graça, se canta pra ela nossa música já batida, se afaga seus lábios sem beijos nos cabelos dela, se a vê nos seus olhos refletidos no espelho e se quando pousa a cabeça no travesseiro, cheira o cheiro dela, assim machucador.
É claro que, assim machucador, mesmo que diga que agora seu coração passeia por novos ares, mesmo escancarando isso para mim, tinha que machucar. E chegar no seu silêncio misterioso, não mais como rapazote forte, nem acariciando os cabelos de gato (ronronante e adorador), chegou naquele nosso íntimo mistério, invadindo meu universo, no fim do meu infinito particular, machucador apenas no abraço. E o seu sorriso desapontador de canto de lábio cantou pra mim aquela canção, sentindo arfar, agora que era machucado e machucador. Fiquei ali, deliciosamente batida, deliciosamente verde, anil, amarelo, cor-de-rosa e carvão.


Imagem: Trecho da obra "O Beijo", Gustav Klimt
Post Scriptum: É, estava a ouvir MM...

sexta-feira, janeiro 18, 2008

Mãos em forma de conchinha



Orando ao fulano Deus para ele me dar um caminho certo pra seguir, vivendo em carvão, em vermelho e azul e multicor, como paixões que surgem e se vão, como as chuvas do verão. Como o material volátil, hora inerente, hora em chamas.

Mas vez em quando, paro e me pergunto se não deveria procurar uma certeza, um porto seguro, a profissão estável, um relacionamento sério, a casa própria e um aquário. Questionando sobre contas, impostos, prestações, trânsito, política, casamento, pasta de dente, as seriedades da vida. Fico presa naqueles momentos em que você se sente como se segurasse uma panela de água por horas, decidindo se vai usá-la ou jogá-la pra cima, deixando molhar o corpo numa manobra inusitada.
Então deixo a água fresca correr sobre meu corpo, sentir cada nervura, pele, contato, tato... Sentindo o gosto singular, vendo sua transparência brilhante. Ouvindo-a esparramar-se pelo chão, e ali descansar, exausta do percurso, para depois novamente seguir o seu caminho: evaporar, unir, condensar, fazer chover, reunir, encanar, vazar, secar, evaporar...


Com o corpo molhado e a alma saciada entrego os pontos: era inerte. Agora é minha vez de estar em chamas.


Ósculos!
Imagem: Internet

O ponto, o amor.

"Cada passo torna-se um ponto de chegada.
Ou a saída do próximo momento."


Quanto tempo!
Postarei um Neruda, and nothing more :]

A Dança

Não te amo como se fosses a rosa de sal, topázio
Ou flechas de cravos que propagam o fogo:
Te amo como se amam certas coisas obscuras,
Secretamente, entre a sombra e a alma.
Te amo como a planta que não floresce e leva
Dentro de si, oculta, a luz daquelas flores,
E graças a teu amor vive escuro em meu corpo
O apertado aroma que ascendeu da terra.
Te amo sem saber como, nem quando, nem onde,
Te amo assim diretamente sem problemas nem orgulho:
Assim te amo porque não sei amar de outra maneira,
Senão assim deste modo que não sou nem és,
Tão perto que tua mão sobre o meu peito é minha,
Tão perto que se fecham teus olhos com meu sonho.
Antes de amar-te, amor, nada era meu:
Vacilei pelas ruas e as coisas:
Nada contava nem tinha nome:
O mundo era do ar que esperava.
E conheci salões cinzentos,
Túneis habitados pela lua,
Hangares cruéis que se dependiam,
Perguntas que insistiam na areia.
Tudo estava vazio, morto e mudo,
Caído, abandonado, decaído,
Tudo era inalianavelmente alheio,
Tudo era dos outros e de ninguém,
Até que tua beleza e tua pobreza
De dádivas encheram o outono.

Pablo Neruda




kiss :*