sexta-feira, janeiro 18, 2008

Mãos em forma de conchinha



Orando ao fulano Deus para ele me dar um caminho certo pra seguir, vivendo em carvão, em vermelho e azul e multicor, como paixões que surgem e se vão, como as chuvas do verão. Como o material volátil, hora inerente, hora em chamas.

Mas vez em quando, paro e me pergunto se não deveria procurar uma certeza, um porto seguro, a profissão estável, um relacionamento sério, a casa própria e um aquário. Questionando sobre contas, impostos, prestações, trânsito, política, casamento, pasta de dente, as seriedades da vida. Fico presa naqueles momentos em que você se sente como se segurasse uma panela de água por horas, decidindo se vai usá-la ou jogá-la pra cima, deixando molhar o corpo numa manobra inusitada.
Então deixo a água fresca correr sobre meu corpo, sentir cada nervura, pele, contato, tato... Sentindo o gosto singular, vendo sua transparência brilhante. Ouvindo-a esparramar-se pelo chão, e ali descansar, exausta do percurso, para depois novamente seguir o seu caminho: evaporar, unir, condensar, fazer chover, reunir, encanar, vazar, secar, evaporar...


Com o corpo molhado e a alma saciada entrego os pontos: era inerte. Agora é minha vez de estar em chamas.


Ósculos!
Imagem: Internet

O ponto, o amor.

"Cada passo torna-se um ponto de chegada.
Ou a saída do próximo momento."


Quanto tempo!
Postarei um Neruda, and nothing more :]

A Dança

Não te amo como se fosses a rosa de sal, topázio
Ou flechas de cravos que propagam o fogo:
Te amo como se amam certas coisas obscuras,
Secretamente, entre a sombra e a alma.
Te amo como a planta que não floresce e leva
Dentro de si, oculta, a luz daquelas flores,
E graças a teu amor vive escuro em meu corpo
O apertado aroma que ascendeu da terra.
Te amo sem saber como, nem quando, nem onde,
Te amo assim diretamente sem problemas nem orgulho:
Assim te amo porque não sei amar de outra maneira,
Senão assim deste modo que não sou nem és,
Tão perto que tua mão sobre o meu peito é minha,
Tão perto que se fecham teus olhos com meu sonho.
Antes de amar-te, amor, nada era meu:
Vacilei pelas ruas e as coisas:
Nada contava nem tinha nome:
O mundo era do ar que esperava.
E conheci salões cinzentos,
Túneis habitados pela lua,
Hangares cruéis que se dependiam,
Perguntas que insistiam na areia.
Tudo estava vazio, morto e mudo,
Caído, abandonado, decaído,
Tudo era inalianavelmente alheio,
Tudo era dos outros e de ninguém,
Até que tua beleza e tua pobreza
De dádivas encheram o outono.

Pablo Neruda




kiss :*

Drummond

"Olha, o amor pulou o muro
o amor subiu na árvore
em tempo de se estrepar.
Pronto, o amor se estrepou.
Daqui estou vendo o sangue
que escorre do corpo andrógino.
Essa ferida, meu bem,
às vezes não sara nunca
às vezes sara amanhã."
[Drummond]


É, me estrepei >.<

Saudade

Tema: Saudade.
Saudades é um sentimento estranho, numa palavra engraçada.
É como uma dorzinha de dente; não tem como deixar pra lá e pensar em outra coisa, ela tá sempre ali martelando, hasteando a bandeira e gritando "- 'Tô aqui!".
Abafar ela também não é muito útil, é como colocar band-aid em ferida, não cura.
Ela vem sorrateira, pula o muro da sua casa e entra por debaixo da porta, se enrosca nos seus pés e vem, e te assola o coração.
E então a gente fica fraco, e pesado: parece que o mundo sentou nos nossos ombros.E as lágrimas adquirem o peso de uma bigorna, tudo fica cinza e a probabilidade de vc se nutri apenas dos seus vícios é grande.Há alguns dias eu passo basicamente à café, é reconfortante.
Saudades de acordar tarde e assistir old liga da justiça
saudade de correr na areia, saudade de ser criança e tomar sorvete sujando toda a roupa, saudades das guerras de bis, saudades do cheiro da tinta do meu quarto sendo pintado...
Saudade das broncas da minha mãe, das pivetisses dos meus irmãos.
Saudades do frio, saudades de quase morrer congelada no vento do cultural.
Saudades do cultural, do lanche do trailler do Caub's, de falar "Caub's"
Saudades das minhas primas, saudades de ficar a tarde inteira jogando bilhar e imaginando a moça do quadro revoltada durante a noite pq todo mundo passava o taco na bunda dela, saudade de andar pela cidade com travesseiros na mão e deitar no meio da avenida pra tirar fotos
Saudades de postar e sempre ter o limite de comentários estourados, saudades dos apelidos que eu dei pra vcs,
saudades do 'se lig, teh'
Saudades de virem me visitar em casa, saudade de ficar sentada na calçada dessa casa amarela aqui na frente q sem vcs não tem graça, saudade de jogar toda a bagunça de barbies pela sala e depois recolher tudo peça por peça
Saudades de levar bronca pq coloquei as coisas no vidro errado, saudades de dançar na sacada de casa e rir da cara dos garotos lá embaixo.
Saudades de dançar no rodeio e maldizer o treinador do hand, saudades de ir na colina ficar olhando pro céu, saudades de zuar os enfeites de natal, saudade de ouvir a mesma música mil vezes, saudades do meu papel de estrelas, saudades do meu cd do J, saudades do meu The Spaghetti Incident, saudades de se vestir de Neta Noel...
Saudades de dançar quadrilha, saudades de cantar musiquinhas de desenho, saudades de assistir CDZ, saudades do Padre Quededo, saudades de brigadeiro com as amigas.
Saudades das frases da coca-cola, saudades de rir até a barriga doer, saudades de ficar fanha, saudades de ir na padaria comprar ruffles e coca cola, saudades de comer bala de gelatina/m+m's na sorveteria, de pintar os celulares alheios ^^
Saudades de falar bobeira a tarde inteira, de prometer, de cumprir, de sair correndo pela rua pulando as arvorezinhas, saudades de zuar a "quase-banda-do-...", saudades de ficar até tarde da noite na rua, de brincar na construção, de estar com vc, de conversar...
Saudades de beber cerveja escondido, de sonhar com os carinhas da Disney, de ficar na casa da minha melhor amiga de todos os tempos por dias.
Saudades da minha melhor amiga de todos os tempos
Saudades de todos os amigos, daquele reveillon, de SC, dos planos, das pulseiras de amizade, dos churrascos, de tomar sol de shorts fazendo teste de revista
Saudades de brincar de pega-pega nas escadas da escola, de matar aula de espanhol, de matar aula de inglês pra ir pro shop, de imitar os professores.
Saudades das meretrizes, saudades do meu pônei, saudades do ARRASTÃO e tudo que vinha com ele, saudades do meu msn antigo, saudades do ICQ, saudades da vida real, saudades da vida digital.
Saudades das intermináveis conversas por MSN com pessoas especiais, saudades das cartas da Bea, saudades de todas as cartas que mandei e não recebi de volta, das figurinhas...
Saudades da simpatia de alguns, que desapareceu quando conheci realmente, saudades de não pensar em nada,
saudades de tudo o que quebrei, rasguei, queimei...Saudades das fotos, saudades dos momentos.
Saudades de MG, saudades de ser criança, saudades de ser amada declaradamente, e escondido tb. Saudades de AMAR sem sofrer, saudades da cortadeira, dos 'sendo com C', do papa polones, do James Bond, da Garouta Soviética, do Catrina, do meu nerd, das intermináveis conversas [II], até dos bugs do fotolog.net!
Saudades de todas as baboseiras que agora são tão importantes...

Saudades, tantas saudades...
Saudades da minha vida, saudades de mim.


Mais tantas outras que eu mal posso falar, saudades de minutos atrás, saudades de dias, meses, anos, instantes.Saudades de palavras, pessoas, papéis, objetos, coisas, interesses, situações, lembranças...




Texto de hoje:
Retrato

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.


Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
a minha face?
[Cecília Meireles]






obs: texto na íntegra aqui, os outros são somente a parte reelevante
:*

Cantiga d'os olhos verdes

Estou arrumando a casa ainda, mas daqui a pouco tudo entra nos eixos!


De mais, tudo bem...Até que enfim as coisas estão mais calmas para mim [exceto aquelas que nunca descansam], e tenho respirado livremente como tanto gosto!


Certas outras coisas são como dores de dente, não passam fácil e doem tanto, mas tanto que confundem seu cérebro e você mal pode pensar no que fazer.


Essas coisas eu simplesmente aceito e abdico; não há como expurgá-las facilmente. Sim, talvez seja uma acomodação que data de tempos e tempos, mas simplesmente é assim que reajo, isso às vezes é reconfortante; ter acesso a dores do passado me faz revivê-lo. E sabem como eu sou saudosista, ah, como amo relembrar-me e querer que tudo seja tão perfeito como fora antes, por mais que antes nao tenha sido. Simplesmente amo o acontecer, e não quero que se vá, e isso é complicado... Mas longe de ser regressionista! Eu olho para frente e vivo agora, mesmo querendo que tenha sido ontem.


Enfim, texto do dia:


Cantiga
A este mote alheio:
Menina dos olhos verdes,
por que não me vedes?

Voltas

Eles verdes são,
e tem por usança
na cor, esperança
e nas obras, não.
Vossa condição
não é d’olhos verdes,
porque me não vedes.

Haviam de ser,
por que possa vê-los
que uns olhos tão belos
nao se hão de esconder;
mas fazeis-me crer
que ja não são verdes,
porque me não vedes.
Verdes não o são
no que alcanço deles;
verdes são aqueles
que esperança dão,
Se na condição está serem verdes
por que me não vedes?










Camões é mestre, e nada melhor do que começar com ele e com esse pequeno poema que amo!
E tanto me diz...
Bem, enfim, aproveitem e não se equivoquem pelo que verem aqui, eu não sou trebulosa =)

Beijos!