sexta-feira, agosto 27, 2010

Quando encontrei Bernarda Alba em seu vestido preto e seus vitrais avermelhados



Eu era menina. Não sentia as mãos raladas e doloridas, nem os olhos fundos de rotina. Não sabia deixar escorrer pelo meu rosto o suor do meu trabalho, nem limpar a maquiagem borrada e tampoco sabia que choro tem fim.
Então cheguei em frente aos vitrais rubros de Bernarda Alba, o seu vestido negro fazendo os cacos de vidro vibrarem dentro de uma lógica casta absurda. Sua gola alva se erguendo imponente pelo pescoço rígido, logo abaixo dos lábios coloridos de um vermelho quase sacro. Eu não poderia entender, por mais que quisesse, quem era aquela mulher que se erguia sobre mim, e porque sua boca era tão torta e suas mãos curvas, cheias de garras. Não conseguiria entender por mais que contemplasse o seu andar doloroso, as rugas vincadas na sua face, as raízes que se arrastavam pelo seu corpo, sustentando os mil anos que vieram antes dela. Porque não era contemplando que eu poderia entender, era sendo. Então eu tentei ser, eu arrisquei as minhas pernas sem cicatrizes dentro dos sapatos doloridos daquela mulher. E turvei minha boca ainda nova numa dor, numa angústia que eu nunca tive. Eu tentei sentir meu útero feito pedra, porque era só assim que eu poderia ter um pouco do incomunal daquela mulher. Pouco a pouco as raízes novas se fincaram na minha pele de dezenove anos, tão lisa e sem história, rasgando a carne para abrir espaço para toda aquela crença, aquela vida, aquela força impetuosa de um touro que sobrevive e se impõe, transformando meu couro envelhecido e surrado, minhas mãos frias e exatas, meu sangue grosso e vibrante de andaluza, um que nem eu sabia que tinha.
Eu fui Mulher, vertiginosa, ferida, menina. Eu tive as marcas das ruas de pedra bem aqui, nesses dedos que agora escrevem, nesses meus pés que me carregam. Eu tive o ódio de ser mulher e ser só, das botas de montaria, dos pés que perderam o sapateado andaluz, que agora relincham nervosos contra o fim dos ideais que nem eram meus, eram dela.
Quando me virei e fui embora, ainda raiavam de luz os vitrais vermelhos, mas agora eram de sangue não abençoado. As rendas do vestido de Bernarda se confundiam com as rendas da minha saia rodada, e acho que carreguei um terço. Agora eu tenho joanetes que se mostram, tenho olheiras. O suor brilha nas têmporas nos dias de trabalho e eu deixo brilhar. Se sou mulher? Menina ainda sou nos dias de samba, quando coloco o vestido cintado e tenho flor no cabelo.

imagem: Vitral de Chartres

quinta-feira, abril 15, 2010

drop



Subia a fumaça do cigarro tão devagar quanto num filme antigo, os dois deitados, largados, juntos, calados. Ou será que só eu me calava? Uma luz ali de fora, quando se abria um ou dois dedos de janela, entrava a cegar meus olhos, amarelada.

- A luz parece que tem um milhão de auréolas que ficam piscando no olho da gente depois que a gente pára de olhar. Parece um monte de anjos... Rodando, tentando ver nossa alma aqui dentro do olho...

Meus olhos agora ficavam cheios de bolinhas piscando, olhando dentro das minhas pupilas vazias. Eu tragava o cigarro como quem canta uma nota conhecida, a boca não se tensionava, a fumaça corria na garganta, os olhos se fechavam pra esconder daquele bando de anjos uma alma que nem eu mesma conhecia. E a fumaça corria pra fora da boca, contínua, segura, amarelando com a luz que vinha lá de fora. Eu saía pela rua procurando por Marina. Eu também via aquele par de sapatos vermelhos de não sei quantos mil réis (que só duravam um mês) andando tortos pelas ruas da cidade, também ia me esconder no cinema querendo ser Marina. Tropeçava nas raízes da árvore que era Marina, suas pernas-madeira se agarrando naquele chão todo, apertando meu estômago também, torcendo minhas entranhas enquanto eu tentava ser tua Marina. O bucho vazio que ela agora carregava pelo menos era mais leve. Marina se rasgava frente a mim, feito papel molhado, desmontava enquanto eu mentia que era ela, enquanto minha reza baixa corria pela terra tentando alcançar alguém que a ouvisse. Nunca soube rezar. Os joelhos doeram tanto quando me fizeram ajoelhar no banco envernizado que esqueci o que tinha que falar, só lembrei da dor. E cada vez que tentava rezar, só vinha a dor; dos joelhos, dos pés, dos dedos, da alma roída que eu não conhecia. A reza ficava assim, curta, sempre sem jeito de ser falada pra santo, era mais um ganido.
Esse quarto é tão vazio quando fecha a janela, quando aquela luz lá do poste não bate nos meus olhos, quando só tenho duas pernas, quando nada se fala nem se ouve, quando a reza pára de rastejar e fica presa no carpete, a porta fechada, o cinzeiro tão cheio e a minha boca vazia de melodias...

- Eu quero sentar em cima dos arcos da Lapa e ver o Circo Voador.

Esses seus joelhos cheios de cicatrizes de velha meninice bem que poderiam te projetar lá pra cima do Arcos, pra deixar os seus olhos brincarem de trapezista caindo na paisagem toda e se balançando, tentando se equilibrar na linha do horizonte. Ai que eles sempre se balançam quando se lançam dentro dos meus, bem sei. Ficam com os pés presos nas suas pálpebras e as mãos tentando fazer os meus se lançarem também. Mas não me lanço, meus joelhos são lisos e fracos e mal servem para sambar, quem diria pra pular dessa altura... Só sei seguir passo inventado, com alguma força e delicadeza, posso te ensinar se quiser. Sei que você só sabe calçar seus próprios passos com esses pés que deus arranjou e também sei bem que você não acredita que os passos já existiam antes e a gente só pisa naqueles que tem que pisar... E não gosta se eu digo que deus esconde os dados que joga. Por que mesmo era silêncio agora? Ai, que com os olhos fechados essas pintinhas de luz ainda insistem em brilhar nas pálpebras da gente... Acho que uma pergunta sua se enroscou na fumaça do cigarro e ficou parada no ar, enquanto seus olhos me encaram atrás de resposta. Ah, por que eu me sinto solta como uma personagem de uma música quando você me olha assim? Porque eu não posso ser Marina. Porque meus sapatos são baixos e pretos, porque meus vestidos verdes não chegam aos pés do azul de prima Luiza, porque eu fico me enchendo de meios pelos quais existir sem tem que ser por você. E essa luz que fica perseguindo minhas pupilas, essa fumaça toda que se pendura nos meus pulmões, esse meu sussurro velado, rasgado correndo pela casa é o que me faz, o que me afirma porque meus pés não se fincam no chão, meus olhos não mergulham e meus dedos só batucam barulhos conhecidos. Sua pergunta, qual era mesmo? Sim, ainda continuarei de olhos fechados me escondendo desses anjos todos.

quarta-feira, julho 29, 2009

Lime, light.


Janela, ela atrás. Olha pela janela com uns olhos que se alongam fora do batente, inteiros, amendoados, coloridos de castanho. Se alongam pela rua de pedra retrógrada, olhos policiais buscando não sei bem o quê. O vestido bem cintado de rendas e bordados delimita a linha dos ombros deixando os ossos bem marcados no colo, o pescoço que se alonga junto com aqueles olhos... Os braços tocam levemente a beirada da janela e o joelho descansa na parede. Respirar, tão importante e fácil de esquecer, respirar inteiramente, fundo, para os pulmões se inflarem como balões de festa e o diafragma quase estourar feito elástico: o peito sobe num movimento gradativo e depois desaba, jogando o ar pra fora.
O interior do cômodo porta-se como as rendas do vestido: detalha silenciosamente os pontos necessários. Assim há algum lugar para se deitar, alguma flor, alguma velha foto, talvez uma música. Na verdade pouco importa uma vez que os olhos estão todos nas pedras da rua.
Passam uns pés por essas pedras. Uns pés bem calçados, outros andando pingentes, apertados em números menores, fugindo em buracos ocasionais... Pés descalços apoiando-se em calos para amenizar o calor que sobe das pedras, pés relaxados, pés cheios de pressa. Também pouco importa os pés, os olhos ainda se alongam mais além dos pés e das pedras. Vão até a rua de cima, até a avenida, a praça, a estação de trem, pelos trilhos correm ansiosos, famintos. Pelos trilhos correm através das matas e das rodovias, olham pela janela e a paisagem nunca é a mesma. Olham nos olhos dos reflexos das janelas, as casas do caminho, perdidas. O cheiro das árvores, que lembra o cheiro de limão verde recém cortado, invade as narinas por meio do nervo óptico, ah, o frescor dos pinheiros do caminho... A outra estação, fora da cidade, entre dois mundos diferentes, o telhado cinza e os trens que nunca param.
Então os olhos vêem o piso lustrado, antigo, e os sapatos que rangem nele, numa melodia familiar, tantan tantantantan, tantan, tan tantan... Os pontos da renda do vestido começam a se desfazer pelos dedos que o transpassam, assim como os elementos no cômodo se distanciaram para dar passagem àqueles outros olhos. A melodia é mais intensa, os ossos do colo se movem, o pescoço longo se contrai com o arfar que chega até ele. Vão para longe estações, trens, casas, trilhos e pinheiros. Os braços se levantam, o joelho enrijece e os olhos se retiram da janela, mergulhando enfim naqueles outros que pareciam demorar tanto a chegar.

Imagem: daqui, via google

quinta-feira, janeiro 08, 2009

Losing my Religion



Ouve o meu nome, esse é o meu nome. É meu nome quando calas ao ver meu sorriso, com a malícia de ser tão atrevida quanto criança quando respondo tuas perguntas retóricas. Meu nome, soletrado, com ódio ou paixão quando te arranco a ferro o olhar superior que tenta te convencer que já não há nada de mim em ti, quando te cravo minhas unhas e logo largo, deixo aí seu corpo se esvaindo sem chegar a mim.
Amor é meu nome em todas as línguas que lambem, em tantas outras que me procuram. É esse, o nome que grita quando confunde minhas pernas, embrenhado em corpos onde procura a m o r, que grita na rua, desvairado, não sabendo quem é o dono, amor capitativo, possessivo.
É esse, esse é meu nome que dedica a outrém, oblata nos altares, o nome alcunhado do teu medo invadido por meu asco é esse que carrego, que retalha, que fura, que rasga. É esse esquecido, rasgado a hora que me rompo a procura de ti, amor, esse é o meu nome, é meu nome quando rompe o dia. Quando te vejo aqui, contornando meu corpo, buscando um jeito de te reconhecer em mim, quando já não há entrelaços nos nossos corpos nos agarrando um ao outro e nos resta agarrar na crueldade de cada um.
Amor é como me chamas quando arranca de mim dois átrios, e o peito dilacerado, um tanto de corpo que já não cria chagas que dão conta, ri descrente da tua fuga. É assim que me apresento quando me vejo em tuas entranhas e já não me reconheço: mudas o meu rosto.
É o nome que também chamo quando me gruda na cintura, e chamo para que não me largue a beira de te largar. É o que evito e sei que também evitas, mas esse é o nome que mais gostas de ouvir: o meu.


Imagem: Juliette Binoche em A Liberdade é Azul
Soundtrack: R.E.M (obvious)

domingo, dezembro 07, 2008



Deixar o dia correr, vê-lo corrente, segue sem rumo, furtivamente. Continuo seguindo, mil passos em meio, como correr tão distante, se vivo ecoante, se tenho que ser

um

minuto

de

cada

vez

?

Imagem: fotografia por Mayara Lima
Sarau Casa do Teatro, dezembro de 2008.